Boçais
Ela falava e eu não conseguia me concentrar em suas palavras. Sentia-me deslocado. Quando saí de casa, não imaginei que pararia num lugar desses. O que me trouxe aqui?
Talvez a vontade de conhecer a cultura, digamos assim. Cansei de ter que estar sempre entre os melhores. Vim para a rua decidido a ir onde todos os outros estavam. E parei nesse bar.
Será que eu devia ter chamado alguém para me acompanhar? Mas quem? Todos aqueles pedantes com quem trabalho, a velha elite montada em sua própria superioridade? Não, hoje eu observaria os comuns, aqueles que não lêem tratados filosóficos, aqueles que fazem alguma coisa de útil.
Foi assim que a prostituta me encontrou. Na verdade, não sei se ela era mesmo uma prostituta. Pareceu-me uma. As roupas baratas, o perfume forte, o vermelho... Nunca fiz nenhum programa. Mas já vi essas mulheres pelos cantos das estradas. Sim, ela definitivamente me parecia uma delas. Só que estava demorando a se declarar. Será que eu precisava mexer na minha carteira, ou algo do tipo?
Minha última namorada nem pensaria na hipótese de me ver numa espelunca dessas. Quando lembro de nosso tempo juntos, a primeira imagem que me vem é de seu rosto baixo, compenetrado em algum prato de um de nossos restaurantes preferidos. Não consigo recordar seus olhos. Não de primeira.
Quanto será que a puta vai cobrar de mim? Isso me despertou por um momento, porém logo voltei a encará-la em algum ponto indefinível entre as sobrancelhas e o nariz. A última coisa na qual prestei atenção no que me dizia foi numa teoria bastante vulgar de que a maioria das bebidas não tem seu valor no preço, ou no gosto, e sim no efeito que causa. Nada muito estimulante.
Eu tinha duas notas de cem no bolso esquerdo da calça. Fiquei na dúvida se ela merecia ambas, ou até nenhuma. Não sabia se era para esperar mais tempo. O que ela queria me dizer com todos aqueles gestos estranhos? Eu ficava confuso e acordava toda vez que ela sorria para mim, era um sorriso pastoso, ele grudava em mim, tinha algo de folhetinesco naquele sorriso.
Não sei quantas vezes eu dei grunhidos como respostas a suas questões. O que eram aquelas unhas? Enormes, pintadas de um vermelho vivo. Senti falta da discrição das mulheres de minha estirpe. Só disso. Por instantes. As unhas ficavam batendo apressadamente no copo de vodca. Será que ela estava ansiosa com o pagamento, ou pelo menos com a sinalização de que ganharia algum? As mulheres com as quais eu sempre saí nunca fizeram este tipo de coisa. É claro que elas pensavam no meu dinheiro, mas me faziam me sentir importante de alguma maneira. Ouviam minhas teorias, por vezes eu quase acreditava que elas estavam entendendo o que eu dizia. Era impressionante.
Agora o silêncio. Ela parou de falar. Eu já estava mudo desde o início. Ela arregalou os olhos sutilmente, o que foi um milagre em se tratando de tal figura. Seu sorriso ficou menos proeminente. Eu diria que era uma feição de ternura. Inclinou sua cabeça levemente ao meu encontro e manteve-se estática. Fiquei com a sensação de que eu tinha que fazer alguma coisa ali.
Decidi-me por apenas uma das duas notas de cem. Depositei no decote da blusa. Achava que era assim que se agia. Ela deu um salto da cadeira, derrubou o copo do balcão, xingou-me de palavrões que eu nunca havia escutado antes. Saiu porta à fora, parecia soluçar.
Não sei se foi a bebida, mas aquilo tudo soou muito estranho. Voltei para casa decidido a nunca mais fazer esse tipo de experiência antropológica. Não tenho estômago para boçais.
Escrito por Rafael Morena às 21h59
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