Slavoj Zizek - Trecho de "The Ticklish Subject" ("O Sujeito Instável")
"Resumindo, há um domínio "para além da Bem" que não é simplesmente a patológica vilania do cotidiano, mas o pano-de-fundo constitutivo do próprio "Bem", a terrível fonte ambígua de seu poder; há um domínio "para além da Beleza" que não é simplesmente a feiúra dos ordinários objetos do dia-a-dia, mas o pano-de-fundo constitutivo da própria "Beleza", o Horror velado pela fascinante presença da Beleza; há um domínio "para além da Verdade" que não é simplesmente o domínio das mentiras banais, falsidades e enganações, mas o Vazio que sustenta o lugar em que cada um pode apenas formular ficções simbólicas que nós chamamos de "verdades". Se há uma lição ético-política da Psicanálise, ela consiste na constatação de como as grandes calamidades do século XX (do Holocausto ao desastre Stalinista) não são o resultado de nossa queda na atração mórbida destes "para além" mas, pelo contrário, o resultado de nossa tentativa de nos afastar do confronto com isto e de impôr o direto governo da Verdade e/ou do Bem".
Isso me faz lembrar de uma frase famosa de Slavoj Zizek, que é a seguinte: "O problema com o Nazismo não é que ele tenha sido radical. O real problema é que ele não tenha sido radical o bastante". Na Alemanha da década de 30, tratava-se de uma necessidade de reação à degradação social, no sentido de que ela constituiria uma espécie de câncer da sociedade, que contaminaria as partes sãs. Levando ao pé da letra o que Zizek diz no trecho acima, a iniciativa da reação tem como fator constitucional a idéia de uma distinção constitutiva entre pares de opostos, o "Bem" (no caso, a sociedade capitalista aristrocática alemã) e o "Mal" (a podridão do cabarés das capitais, a cultura irônico/crítica judaica). Zizek diz que o radical seria tentar colocar em xeque a própria sociedade, no que ela cria a podridão, no que ela gera violência. Nesse sentido, a reação nazista nada mais foi do que a exacerbação da "feiúra", do "mal", da "mentira" que dava base aos ideais da época.
Até que ponto nossas reações indignadas aos casos cada vez mais freqüentes de assassinatos perversos, de crianças arrastadas por carros, de filhos sendo mortos pelos pais e de pais mortos por filhos, não demonstram, para além da idéia de que "estamos ficando cansados do que está acontecendo", que na verdade estamos criando também mecanismos cruéis de vingança? A vingança é sim uma forma de mascarar, de sufocar o Real que se apresenta nestes casos que, principalmente por revelarem que "nós também podemos fazer essas coisas", precisam ser violentamente rechaçados. Porém, a própria reação acaba deixando às claras nossa "maldade" constitutiva, ou seja, ela também comporta a vilania dos atos mais brutais, só que travestida de "Justiça".
Escrito por Rafael Morena às 08h02
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