Tom Bell é xerife de uma pequena cidade do Texas. À beira
da aposentadoria, questiona-se quanto ao seu trabalho, sua obra, aquilo que fez
durante tantos anos. Lembra-se de seu pai, que seguiu a mesma profissão. Será
que ele teria conseguido lidar com o tipo de criminoso que Tom tem encontrado,
um tipo novo nas paragens de 1980? Criminosos sem regra, sem lei, sem
significado, como Anton Chigurh, assassino em série que se compara a uma moeda,
transitando sem rumo pelo mundo, passando de mãos em mãos, trazendo sorte, ou
azar, para quem o encontra? “Quem quer lutar contra esse tipo de gente, tem que
estar disposto a entrar neste novo mundo”, diz Tom Bell. A pergunta que fica é
se ele terá essa disposição.
Bruce Wayne é um bilionário que poderia simplesmente
curtir a vida como um playboy, sem se ocupar das mazelas sociais. Poderia, se
não tivesse visto seus pais serem mortos por um ladrão, quando pequeno. Depois
de pensar em vingança, decidiu tornar-se um símbolo de luta subjetiva para se
transformar num homem melhor. Tornou-se o Batman. A cidade em que vive, Gotham
City, é corrupta e degradada, porém ele acredita que, com um bom exemplo, com um
justiceiro, um fora-da-lei que combata o crime, as pessoas se inspirarão nele e
poderão, enfim, reconstruir a cidade pelo viés da lei. No dia que isso
acontecer, Gotham não precisará mais de Batman. Ele chega a encontrar a pessoa
certa para substituí-lo: Harvey Dent, novo promotor público da cidade. Porém há
alguém que pode botar tudo a perder, um criminoso lunático, perverso, chamado
Coringa. “Eu não faço planos, a sociedade faz planos. Eu apenas sigo o
movimento”, diz Coringa. Como a moeda de Chigurh, moeda que será o símbolo de um
outro vilão, Duas Caras, que decidirá a sorte de suas vítimas através do
Cara-e-Coroa, o Coringa apenas flutua pela vida, causando morte. Batman não sabe
lidar com esse tipo de gente, assim como Tom Bell; tratam-se de pessoas que
“apenas querem ver o mundo pegar fogo”, não há como puni-los pela lei, ou
melhor, a lei é falha contra aqueles que não se importam com ela.
Tom Bell e Bruce Wayne são os personagens principais dos
dois filmes mais famosos do ano, “Onde os Fracos não têm Vez” e “O Cavaleiro das
Trevas”. O primeiro foi agraciado com o Oscar, o segundo é a maior bilheteria de
todos os tempos. Ambos tocam no problema crucial de nossos tempos pós-modernos:
a violência sem sentido, a pura perversidade de nossa geração e sua relação com
as velhas engrenagens do Estado de Direito. Há esperança para além do caos? Há
uma ética possível num mundo sem uma resposta sintetizadora, religiosa? Os dois
filmes são levemente pessimistas. O bandido não sofre nas mãos do mocinho. De
fato, os heróis parecem sempre defasados com relação aos vilões.
Chama atenção também a diferença de recepção dos filmes
pelo público. “Onde os Fracos...” causou acessos de raiva nos espectadores. Nos
cinemas, após o término da película, várias pessoas ligavam para amigos
recomendando que não vissem essa “merda” sob hipótese alguma. Já “Batman” tem
sido um êxito completo, talvez por dialogar melhor com o público, por ser mais
atraente ao mostrar efeitos especiais e personagens clássicos de HQ. Ou seja, o
primeiro é mais contundente, toca nas feridas de forma mais direta, o que pode
causar resistências. O segundo é mais “leve”, consegue atingir uma audiência
mais abrangente, mas perde exatamente por não angustiar o suficiente.
De qualquer forma, é bom ver
que a questão da “Ética” tem recebido um tratamento digno no Cinema
contemporâneo, abrindo debates e não dizendo simplesmente o que devemos fazer. É
um primeiro passo.