Universitários e Clínica
"Permaneci quatro meses na enfermaria masculina e completei meu primeiro ano de rede na enfermaria feminina. No início de minha trajetória, admito que me senti perdido. Não sabia exatamente o que “deveria” fazer, nem qual era minha “função”. Certo dia, eu ouvi de um paciente, o falecido Cláudio Rebelo, a seguinte pergunta: “Quando você assumirá seu posto aqui dentro?” Não pude responder, já que meu “posto” ainda não existia.
De onde vinha essa dificuldade? Creio que não me ajudou o fato de ter pisado pela primeira vez no Hospital como um mero estudante universitário. Acostumado a ficar confortavelmente sentado em sala de aula, esperando que o professor me convencesse de que ele estava correto no que tentava ensinar, me encontrei numa situação contrária. Eu é que precisaria, agora, lidar com o desconforto que a realidade da enfermaria me impunha e tirar disso conseqüências práticas no sentido de convencer a mim mesmo, e aos outros, de que poderia fazer algo de útil com o espaço que havia me sido cedido.
(...)Os textos psicanalíticos falam muito de “foraclusão”, de “ausência de laço social”, etc. Porém, voltando ao argumento anterior, enquanto agisse como universitário, acreditando num conhecimento a priori que pudesse “domesticar” a loucura, torná-la adaptável às minhas teorias, estaria longe de me apresentar realmente naquilo que fizesse.
(...)Partindo do princípio de que não é necessário ter formação psicanalítica, nem passar por um processo de análise para estar onde eu estava, me vi com o desafio de encontrar algo na psicose que fosse além dos jargões, algo de palpável que me ajudasse a dizer o que é esta clínica, mesmo mantendo uma referência na Psicanálise, passada pelos meus supervisores. Nada melhor do que simplesmente olhar à minha volta e abordar os pacientes".
(Trechos de meu trabalho de conclusão de estágio supervisionado)
Escrito por Rafael Morena às 09h29
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