
"Quando você saía pelas portas dos fundos daquela casa havia um cocho d'água de pedra no meio do mato do lado da casa. (...) Não sei quanto tempo fazia que estava ali. Cem anos. Duzentos. Dava para ver as marcas do cinzel na pedra. (...) E eu comecei a pensar no homem que tinha feito aquilo. Aquele país não tinha tido um período muito longo de paz em momento algum que eu soubesse. Li um pouco de sua história desde então e não tenho certeza de que tenha tido. Mas esse homem havia se sentado com um martelo e um cinzel e escavado um cocho d'água capaz de durar dez mil anos. Por que isso? No que ele tinha fé? Não era que nada fosse mudar. O que talvez você possa pensar, acho. Ele com certeza não era tão ingênuo. Pensei um bocado nisso. (...) Sou capaz de dizer que aquele cocho ainda está lá. Não teria sido fácil tirá-lo dali, vou te dizer. Então penso nele ali com seu martelo e seu cinzel, talvez uma hora ou duas depois do jantar, não sei. E devo dizer que a única coisa que consigo pensar é que havia alguma espécie de promessa em seu coração. E eu não tenho a menor intenção de escavar um cocho de pedra. Mas gostaria de ser capaz de fazer esse tipo de promessa. Acho que é a coisa de que mais gostaria, acima de tudo". (Cormac McCarthy - Onde os Velhos Não Têm Vez)
Escrito por Rafael Morena às 20h38
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