O zumbido do silêncio
Chegou em casa e as luzes estavam apagadas. Não poderia ser outra coisa, já que não vivia com mais ninguém. Lembrou-se dos tempos de filho, quando tinha sempre os braços e abraços de sua mãe. Abraços que eram dados por olhos e sorrisos largos, pelo colo quente e acolhedor. Não é de agora que decidiu não ter mais vergonha destas lembranças. Estava ficando velho.
Voltando ao presente, fechou a porta e caminhou com cuidado até o interruptor. Ligou as luzes e, se podia retornar ao passado na escuridão anterior, se podia preenchê-la com suas reminiscências mesquinhas, agora só lhe restava se deparar com a presença incômoda do silencioso sofá, da tela plana do televisor, das paredes brancas e frias. Agora, só lhe restava a realidade. Olhou seus objetos como se olha para estranhos suspeitos numa rua deserta. Isso foi por um instante, quando ainda acreditava ter companhia, mesmo inanimada. Depois lhe sobrou a solidão.
Decidiu sentir fome, ir à cozinha para preparar um lanche. Quando comeu o último pedaço de sanduíche e bebeu o último gole de suco de maracujá, largou o copo e durante alguns minutos mirou perplexo suas mãos abertas, as linhas das palmas. Sempre lhe disseram que uma delas era a linha da vida, só que não sabia qual era. De fato, todas se pareciam mais com caminhos estreitos que desabam num nada, caminhos que não levam a lugar nenhum. Acordou e pensou em fazer mais alguma coisa. Lavar roupas, ver um filme, escrever algo, qualquer atividade seria perfeita.
Caminhou até a janela de seu apartamento, procurou as estrelas e a lua, mas o céu apenas apresentava-se rosado, como se fosse chover a qualquer momento. Ele esperou pelas gostas, de vez em quando esticava o braço para saber se estava chuviscando. Nada aconteceu. Tomou banho e deixou-se envolver pelo calor da água. O som dela batendo forte no piso às vezes lhe dava a idéia de ter gente ao seu redor, como num jogo de futebol. Conseguia ouvir as vaias, os gritos de olé, o gol. Fazia tempo que não ia a um estádio.
Mais tarde, deitou-se em sua cama e assistiu a um programa sobre culinária. Nada melhor do que isso. Sentia um certo incômodo com filmes dramáticos, que falassem sobre famílias, ou sobre qualquer coisa que lembrasse sociedade. Faltou luz, ficou sem saber o fim da receita de carneiro ao molho de menta. “Deve estar chovendo em algum lugar nas redondezas, enfim”, pensou. Porém não ficou nisso, foi mais além. Devia ter também um casal fazendo amor, uma família comendo à mesa de jantar (como acontecia na casa de sua infância), amigos se abrigando do temporal debaixo de alguma marquise no centro da cidade. Era tudo tão próximo que era impossível tocar.
Dormiu quando não tinha mais o que imaginar. Apenas ouvia um zumbido, que é o verdadeiro som do silêncio. Sonhou com dias felizes, que só podiam mesmo existir na sua mente.
Escrito por Rafael Morena às 19h14
[ ]
[ envie esta mensagem ]
|