O Cheiro do Ralo
“Diferentemente do que acontece em todos os níveis do reino animal (...), o homem caracteriza-se na natureza pelo extraordinário embaraço que lhe causa (...) a evacuação da merda”.
Esta frase de Lacan encontra-se em sua conferência intitulada “Meu ensino, sua natureza e seus fins” e tem uma analogia muito grande com o constrangimento que Lourenço, protagonista do filme “O Cheiro do Ralo”, sente quando alguém parece se incomodar com o desagradável odor proveniente do banheiro de seu escritório. Faz questão de dizer que o cheiro é do ralo, não dele. Porém, se é só ele quem usa este banheiro, como o cheiro pode não ser dele?
De onde vem esta necessidade de desvencilhar-se daquilo que é o seu “produto”, porém com o que não se pode identificar? Lacan diz que “o homem é o único animal para quem isso representa um problema, mas prodigioso”. Lourenço também age como se fosse um problema, só que prodigiosamente começa a relacionar-se de outra forma com isso. Não é por um certo decoro que ele se embaraça com o cheiro, mas porque isso diz algo sobre sua condição. Não é à toa que ele demora a tentar consertar o ralo, e mesmo assim, acaba de fato não o fazendo.
Qual é a função de um homem que compra quinquilharias e as acumula sem revendê-las? Qual é a relação entre estes objetos sem valor e a merda que escoa pelo sistema de esgotos e acaba numa Baía de Guanabara qualquer? Parece que Lourenço é o dono de um depósito de restos. Na verdade, parece que ele próprio é um resto, um resquício de uma humanidade levada ao seu ponto mais elementar.
Não podemos deixar de compará-lo ao personagem de “Talk Radio”. Ambos relacionam-se com os outros a partir de uma sinceridade radical que os coloca em situações-limite e experiências mortíferas. Não é coincidência que os dois tenham finais semelhantes. O entupimento do ralo demonstra que algo está por um fio. Existem detritos que precisam circular nos subterrâneos, para que a cultura se faça. Lacan coloca como pedra fundamental do surgimento das grandes civilizações a criação de sistemas de esgoto. Se os dejetos se acumulam e transbordam, algo do Real se apresenta.
Lourenço é um homem que simplesmente não consegue conviver com a chamada “normalidade”. Convites de casamento, boas intenções, romantismo, tudo o conduz à realidade dura da degenerescência, da podridão e do cheiro insuportável de seu banheiro. O homem que nunca se deixou seduzir por uma bela bunda, que atire a primeira pedra. A questão que se coloca para ele (e onde outros homens muitas vezes recuam), é a de saber como conquistá-la sem receber a mulher em acréscimo. Ou seja, Lourenço se identifica com a merda porque ele vive a cultura ali onde não há disfarces, onde ela se coloca como um sem-sentido. De certa forma, não seria esta a postura valorizada em nosso mundo pós-moderno? A ironia, forma cômica muito apreciada pelo personagem e que também se constitui no paradigma do humor de nosso tempo, não seria na verdade uma espécie de crítica sem ato? Cabe a ele apenas responder sintomaticamente a isso no que ele acredita não se reconhecer.
Escrito por Rafael Morena às 05h38
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