"O Segredo"
“O Segredo”, “best-seller” do momento, parte da premissa de que existe uma lei, a “lei da atração”, que rege nossa relação com o universo e que, durante um bom tempo, esteve nas mãos de alguns poucos privilegiados. Só na passagem de uma cultura primordialmente religiosa para uma científica é que ela pôde ser desvendada para as pessoas em geral.
Esta teoria consiste na idéia de que o cérebro humano transmite vibrações numa determinada freqüência, atraindo coisas para os indivíduos de acordo com seus pensamentos e sentimentos. Ou seja, para os que conhecem “o segredo”, na vida não há lugar para as contingências. Se tudo que se tem é fruto da mente, se tudo que acontece conosco é atraído por nós, onde haveria espaço para o que se chama de “Real” em psicanálise?
Amor, dinheiro, saúde... Quem em nossa sociedade não pensa nisso? Sem dúvida, até algumas pessoas que buscam um psicanalista, na verdade, querem mais é encontrar uma chave, uma resposta, uma fórmula para possuírem estas coisas. Ter isso impresso, ou em dvd, facilita tudo e é bem mais barato. Se as “energias do Universo”, uma espécie de “gênio da lâmpada”, substituto de Deus (será?), são capazes de nos dar o que “desejamos”, onde está o sujeito? Numa crença? Se os desejos são fruto da mentalização, se os sentimentos podem ser moldados a partir de um determinismo, será que existe o inconsciente?
A física quântica entra em cena, dentro da moda atual, para balizar o “Segredo”. Afinal, há algo mais misterioso do que a teoria de Einstein? Não deve ser à toa que ela venha sendo utilizada com tanta freqüência. No livro, há depoimentos de psicólogos e filósofos ao lado de neurologistas e cientistas de diversas áreas. Será que essa ligação não tem a ver com uma certa tendência, uma pretensão que remonta aos primórdios da Psicologia e que tem a ver com a dita necessidade de confirmação científica dos estudos do psiquismo humano? E, por outro lado, não está em voga também uma “psicologização” da cultura ocidental, onde não se pode nem fazer um projeto de edifício sem se questionar acerca da subjetividade do engenheiro?
Uma determinada abordagem psicanalítica com certeza contribui neste processo. Pois os conceitos criados por Freud, referentes à prática, e discerníveis apenas na mesma, ganharam vida própria e tornaram-se jargões. Tanto em determinados círculos de analistas, quanto nas universidades, banalizaram-se discursos vazios que utilizam “clichês” na busca de confirmação, de validação acadêmica, assim como alunos que têm procurado a análise não por sentirem-se indispostos com sua vida, mas por acharem que assim receberão um saber, um “segredo” de como se tornarem também analistas. Há quem atenda essa demanda.
Ou seja, o sucesso do livro pode ser considerado intrigante, ou mesmo causar uma onda preconceituosa por parte de estudantes e acadêmicos de ciências humanas. Porém, o fenômeno existe e precisa ser destrinchado. O que provoca tamanho sucesso? Será que no cerne da própria prática dos psicólogos e das ambições de alunos universitários não estaria a resposta para a questão? Se assim for, faz-se necessário que se preste mais atenção nesta obra, pois ela pode ser bastante instrutiva para aqueles que têm uma visão crítica de suas profissões e que esperam realmente fazer algo que seja diferente do que “O Segredo” faz.
Escrito por Rafael Morena às 14h33
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