Sobre folhas e homens
Aquela folha na beirada da calçada, tão resistente ao vento e às contingências, grudada num pedaço de nada, equilibra-se corajosamente, enquanto a observo de um banquinho próximo. Penso que a vida consiste exatamente em encontrar um ponto fixo em meio ao vazio, raízes onde nosso destino de folha possa se desenrolar. Um dia cairemos dos galhos e secaremos pelo chão, mas não importa quando ou como isso aconteça, estaremos sempre seguros enquanto tivermos onde nos apoiar. A folhinha da beirada resiste inabalável, assim como a convicção humana quando tem a certeza do destino. Cada um de nós é singular em sua existência, porém não somos individuais. Uma árvore nunca tem apenas uma ramificação. Todos os ramos se relacionam com o todo. A folha me olha e me convoca. Sussurra ao meu ouvido:
“Não interessa o quão insensata seja a missão, não importa o quão pequena seja sua influência, é sempre para fora, para os outros, que se deve endereçar a sua inquietude. Aquilo que te toca, que te causa, os valores que aprendeu a preservar, devem estar sempre claros não só para você, mas para os outros. Quem sabe um dia alguém não vá te escutar?”
E no dia que isso acontecer, minha existência terá valido o máximo, assim como a da folha que me revelou este segredo e que, por causa disso, atravessou sua mera duração cronológica, partindo para o futuro em minha memória e neste texto.
Escrito por Rafael Morena às 00h25
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