2046 - Os Segredos do Amor
“Antes, quando as pessoas tinham segredos que não queriam compartilhar, elas subiam numa montanha, procuravam uma árvore, lhe faziam um furo e sussurravam o segredo nessa abertura. Depois tapavam-na com barro. Desse modo, jamais alguém descobriria o segredo”.
Sr Chow tem um segredo. Ele amou alguém no passado, mas o romance não se consumou. Ficou apenas na possibilidade, porém não cessou de se fazer presente. Trata-se de um segredo impossível de se esconder. Não há como tapar a abertura nessa árvore.
É a recordação de um sem-sentido. O próprio amor não tem sentido. Não é disso que se fala no mito do amor? Um sentimento arrebatador, mais forte do que nós mesmos, algo que cresce em nossos corpos e que se apodera de nossa mente, algo simplesmente irracional?
Na verdade, podemos dizer que o amor tem sentido. Ele produz sentido, no que se articula ao real do desejo. Coloca em cena o destino, a crença na unidade, a busca pela chamada “alma gêmea”. É disso que sofre Sr Chow. Ao encontrar a mulher que considera ideal e perdê-la, ele passa a cultivar a lembrança do malogro, do trágico de um amor insatisfeito. Um nó se constitui a partir desse acontecimento. Deste ponto em diante, amar torna-se sinônimo de sofrimento, de perda, reconstituindo-se como um saber dessa vez negativo.
Interessante notar que Sr Chow não se dá conta disso. Da abertura na árvore que tentou tapar, jorra incessantemente e repetidamente o que ele quer esconder. Na relação com a jogadora misteriosa de Cingapura, o que causa sua aproximação é um traço de identidade - bastante significativo, por sinal – o nome de sua amada: Su Lizhen. Em suas conversas, limita-se a relembrar a vida em Hong Kong, o relacionamento com a Su Lizhen original, o número do quarto em que se encontravam: 2046. Ao decidir voltar para a cidade natal, repete o ato passado, chamando a nova Su Lizhen para acompanhá-lo. Convite obviamente recusado, pois este é um jogo de cartas marcadas. Ele então supõe que a recusa seja pelo passado obscuro dela, representado pela luva em sua mão esquerda.
Em Hong Kong, Chow observa o casal formado pela filha do dono do hotel onde mora e um hóspede japonês. A interdição paterna faz com que este romance também sofra de uma impossibilidade. Chow logo se identifica com a situação. Ao mesmo tempo, torna-se um curioso “entendido em mulheres” , como diz, transforma-se num boêmio, um libertino. Paga pelas companhias femininas, “companheiras de copo”, e faz questão de que mesmo aquela que se apaixona por ele aceite dinheiro em troca das noites passadas juntos. “Existe algo que não empresto a ninguém”, anuncia Sr Chow. Trata-se do amor que morreu, preso ao objeto perdido. O dinheiro dá a dimensão do limite.
Chow escreve uma série erótica para jornais. Chama-se 2046. Nela, conta a história de uma cidade no futuro para a qual todos aqueles que perderam algo vão à tentativa de recuperá-lo. Nesta cidade nada muda. Ele viaja de Hong Kong a Cingapura e depois de volta e tudo que encontra é a recordação dolorosa de seu passado; rastros de lágrimas. Nos seus textos, reproduz suas experiências e, a partir disso, as elabora novamente. Descobre, por exemplo, que a recusa da jogadora em viajar com ele nada tem a ver com o passado dela, mas com o dele. De fato, ela enxerga o que ele é incapaz de ver. Ouve o segredo que Chow despeja na abertura da árvore: seu amor incondicional pela outra Su Lizhen. “Você não sabe nada do meu passado”, diz a jogadora. Antes de ser um alerta para algo sobre ela que precisa ser dito, é na verdade a constatação daquilo que Chow confirma com suas próprias palavras: “Eu não me importo com seu passado”. O que apenas importa, neste caso, é o nome: Su Lizhen.
Tornando-se consciente de sua condição, Sr Chow parece aceitar a eterna repetição de sua desilusão como um destino fatídico, final conhecido do amor trágico. O que poderia ser um primeiro passo para uma nova tentativa de amar, talvez agora seguindo a lógica do não-todo, da quebra da ilusão da existência de um objeto ideal, único, acaba se tornando a tábua de sustentação de suas frustrações sintomáticas. Rumo ao futuro, viaja num trem que não pára em nenhuma estação e que parece inerte, preso às recordações. Projeta como única aspiração, a conservação da lembrança do que poderia ter sido. Não consegue criar para si mesmo um final feliz. Em suas próprias palavras, sentencia:
“O amor tem a ver com o tempo com que se passam as coisas. Não é bom encontrar a pessoa certa demasiado cedo, ou tarde. Se eu tivesse vivido noutro tempo ou lugar, a minha história poderia ter tido um final diferente”.
Rafael de Mello Morena
Escrito por Rafael Morena às 19h08
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