Júpiter
Alguém me disse que eu precisava ser feliz. Peguei um ônibus pra São Gonçalo. Dopei-me com as imagens em outdoors. Todas me falavam carícias. Tentei organizar os pensamentos. Só escrevo em notas de rodapé. Sentado à janela só podia remoer o desespero. Pequenas frases se formavam. O calor do vento que mexia meus cabelos me animava. O frio de minhas mãos tensas era mascarado. O suor gélido escorria pelas costas e me lembrava.
Só poderia sorrir se descobrisse a verdade. Todos os pormenores. Masoquismo neurótico, se é que esta categoria existe na literatura específica. Martelava minha cabeça uma obsessão insaciável. Redundâncias. O motor do veículo trabalhava e punha em movimento meu corpo inerte. Meu nome é Rafael, sempre foi e será. Se mudasse também não faria diferença. Foi outro que ecoou primeiro. Simpatia eterna e tolerância plena. O resto é o que me resta, assim como essa cidade-adendo, esse resquício niteroiense.
Desci do ônibus e olhei em volta. Pelo matagal e os barracos tijolados, minha felicidade se realizou. Um amigo de um amigo sempre é mais amigo que o novo amigo. Tem história. Há certos lugares que não podemos freqüentar. O tempo passa e destrói as possibilidades. Não importa o que vem depois. Um sorriso debochado sempre demonstra isso. Esse matagal e esses barracos não têm dono. Áreas nobres já estão vendidas, ou pelo menos alugadas.
Fiz-me de morto. Mas não é justo. Também tive minha cota. Só não sei compartilhar. Talvez a felicidade esteja sempre num certo equilíbrio. Minha balança é viciada. Assim como os dados que jogo. Se perco, como foi o caso, choro em viagens. Pois esta se encerrou. Não encontrei redenção em São Gonçalo, nem alegria eterna. Só a satisfação provisória de um certo escárnio, último refúgio dos idiotas. Nunca saberei o que aconteceu, além das páginas que preenchi. A maldade está reservada para quem ama. O que usa e descarta, se chegou na hora certa, tem a primazia da coragem e recebe os louros.
Ave, César!
Escrito por Rafael Morena às 19h07
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