Marte
Jorra de minh’alma
Sangue denso de paixões
Inoculado pelo veneno
De uma serpente interior.
Animal indestrutível
Inimigo que me move
Dos cortes fundos que provoco
Ao Sol forte de meus dias.
Há muito já larguei
A primazia do sentido
Que brotava feito vida
Das certas feridas.
Apenas faço escrever
Movido por esta força que pulsa
Mais forte que o coração
Mais insaciável que qualquer instinto.
Homeostase impossível
Essa que busca a humanidade,
Pois ela só existe enquanto morte
Na comunhão com o nada.
Vazio preenchido
Pelo pensamento, isso sim,
Pela fé cega de um ser que só vive,
Pois a verdade sempre nega...
Escrito por Rafael Morena às 07h46
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Mercúrio
Fugindo, correu. As palpitações começaram. O ar queimava sua garganta. As recordações o perseguiam e sempre o alcançavam. Por mais rápido que fosse, sempre se atrasava. Por mais longe que quisesse ir, mais perto ficava.
Porque há coisas que são inexplicáveis. Acreditamos que dando sentido às experiências, conseguimos domar os impulsos. É como se cobrássemos de palavras que elas suturassem nossa natureza. A angústia é que nos move. É ela que o faz correr. Seus músculos eram obedientes, superavam o cansaço.
Uma dor aguda o impelia. Certo dia, deitado, prostrado numa cama, sentiu como se um objeto se mexesse em seu peito. Aquilo o incomodava e continuou por muito tempo. Tempo demais. Decidiu, não sem atraso, que devia correr. Apenas isso. Correr pelo mundo, em busca de respostas. Não era um lugar que almejava. Era um pensamento. Uma frase que o acalmasse. Um sentido.
Quando a viagem tornou-se insuportável, parou. Olhou em volta, encontrou-se num deserto, pegou um punhado de areia do chão e o sentiu escorrer pelos dedos. Foi neste instante que tudo se resolveu. Notou que a vida nada mais era do que uma morte contínua e que o tempo sempre escorria pelos dedos. Descobriu que não havia motivo que justificasse sua corrida. Ao invés do sentido, constatou uma verdade para além dele. Descansou. Quando seu corpo o autorizou, começou a voltar para casa. Quando chegasse, não estaria melhor do que antes. Teria apenas a impressão de ter perdido algo... E de estar atrasado.
Escrito por Rafael Morena às 21h39
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