Vênus
Parece que sempre esteve ali,
Imóvel e serena,
Perfeita,
No meio da praça.
Sentado num banco,
Anos passou a contemplá-la,
Em seus sonhos ela aparecia
(banhando de luar sua noite).
Eis que um dia,
Ele sentiu um leve incômodo
Certa semente foi plantada
Em sua alma.
As folhas cresceram e sufocaram
Fitou os olhos estáticos
Da pedra talhada
E pensou no que eles viam.
Aquela estátua não era gente,
Mas para ele era mais
Que apenas estátua.
Em seu contorno vivia algo dele.
Suas sombrias aspirações,
Seus desejos enterrados,
A estátua era ele.
Logo passou a odiá-la.
Sabia o que era preciso fazer.
Pegou um martelo
Escolheu uma tarde ensolarada,
Daquelas em que nada pode dar errado.
Viu certas nuvens passearem pelo céu,
Sentiu a brisa preguiçosa,
Olhou para o dedo de Vênus
Que parecia apontar sempre à diante.
“Eu seguirei em frente” -
O balbucio se perdeu.
Assim como o som da pedra quebrada
Do dedo que voou.
Ele a observou imperfeita,
Não disse “Parla!”,
Apenas chorou sua imperfeição
Revelada e projetada naquele dedo,
Que agora faltava.
Escrito por Rafael Morena às 19h17
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