Outono
Zaratustra acordou certo dia e não reconheceu mais sua velha cabana. As coisas foram acontecendo assim. Antes, já havia se esquecido da origem de sua única companheira, uma bonequinha chinesa de porcelana que decorava a escrivaninha rústica de seu quarto. Esqueceu também de seu passado, de onde nasceu. Tudo passou a perder o sentido. Não conseguia mais ter ânimo para cortar a lenha, nem mesmo de acender a lareira nas noites frias da montanha. Não encontrava forças para caçar os animais silvestres e de plantar. Seus escritos filosóficos não tinham mais nenhuma relevância e sentia vergonha de ter gastado tanto tempo neles. Quanto mais se fechava em si mesmo, mais compreendia o ridículo de seu isolamento. Depois, veio a angústia de imaginar que talvez fosse o único ser humano existente. Não tinha mais condições de organizar temporalmente suas experiências. Sabia menos a cada dia. Até que chegou a hora em que apenas vivia o momento. Desceu a montanha, esqueceu-se da montanha, viu uma árvore exuberante e aproximou-se, esqueceu-se da árvore exuberante, deitou e fechou os olhos com suas últimas forças, esqueceu-se do que era deitar e ter os olhos abertos. Foi quando a escuridão aconchegante da morte apossou-se dele. No outono, seu corpo foi coberto de folhas.
FIM
Escrito por Rafael Morena às 21h19
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