Manifesto pela originalidade, contra a ditadura da multiplicidade
Poderia ser de outra forma? Talvez. Não me importa. Cansei de histórias que mostram caminhos percorridos, sem chegar a uma conclusão. A dúvida, quando criativa, tem o seu valor. Mas se fazemos dela o norte de nossas ambições, permanecemos parados.
Tudo é uma questão de fazer escolhas e sustentá-las. Se não vivemos mais sob a égide do Iluminismo, nem por isso devemos cultivar as incertezas. O pós-modernismo é moda, não sem malícia e violência. Poder discursivo, múltiplos saberes que têm, como objetivo, afirmarem-se de forma repressiva - e não é sempre assim que eles se impõem? Alguns defensores do pluralismo pós-moderno falam de liberdade, como se ela não fosse uma abstração.
Ou melhor, a liberdade existe. E como já disse em outra oportunidade, ela está diretamente ligada à mortalidade. Nossos atos só têm valor ao causarem efeitos de estranhamento, ao matarem nossas identidades, mesmo que sejam as do tipo “estou sendo”, ao invés do “eu sou”. Tanto faz. Falar em confusões, em complexidades, em pontos de vista, tudo isso faz parte do elenco de clichês que povoam nosso chamado “pensamento” contemporâneo. Ditadura do relativismo paralisante.
Está presente nas rotuladas instituições. Nada de radicalismos! Não existem causas. Talvez essa seja a legitimação da covardia. Devemos ter opinião, atitude; devemos nos engajar, o que quer que isso queira dizer, mas sempre dentro de certos limites. É o limite do efêmero, do fragmentário, daquilo que não se presta a racionalizações. E morando no casebre do micropolítico, devemos nos contentar com nossas “boas intenções”, com nossa erudição e sensibilidade insossas.
No reino do talvez, do que pode ser, mas é melhor que não seja, nos perdemos e aceitamos a perdição, transformando isso em arte. É uma tal profusão de filmes, peças teatrais, livros, sempre dizendo as mesmas coisas, entrando em contradição com o tal multiculturalismo, que chega a um ponto em que é preciso que alguém dê um soco na mesa e diga: Basta! A história que se sucede é sempre a do homem confuso em seu mundo, trilhando caminhos inusitados, chegando ao fim sem conseguir sintetizar a sua “experiência”, curtindo o sabor da anarquia doce dos movimentos inexplicáveis. É sempre isso!
No império do Eu, não há espaço para ações relevantes. Trata-se da luta pela preservação, pela sobrevivência num mundo que segue seu curso, ou melhor, segue suas redes plurais, lineares, estratificados de movimentos molares e moleculares e nos contingentes choques de blocos e agenciamentos maquínicos. Tudo tão chato e repetitivo, mas com nomes tão bonitos e pomposos.
Termino meu grito de desespero, parecido com o quadro de Munch, pedindo a alguém talentoso que quebre esta padronização aterrorizante de pluralismos supostos e citando o mestre Slavoj Zizek, na passagem em que fala sobre o maior representante da ideologia dominante do capitalismo atual, Gilles Deleuze:
“O que a ênfase na multidão e na diversidade disfarça é, naturalmente, a monotonia subjacente à vida global de hoje. (...) Se já ouve um filósofo capaz de redescobrir e repetir sempre a mesma matriz conceitual ao tratar de qualquer tópico, da filosofia à literatura e ao cinema, esse foi Deleuze. A ironia desta revelação é ser precisamente esta a crítica padrão a Hegel – não importa o tema que esteja discutindo, Hegel sempre consegue ajustá-lo ao molde do processo dialético. Não existe uma espécie de justiça poética no fato de ser Deleuze, o anti-hegeliano, o único filósofo a quem se pode aplicar essa afirmação? E isso é especialmente pertinente com relação à análise social: existe coisa mais monótona que a poesia deleuziana da vida contemporânea como a proliferação descentrada de multidões de diferenças não-totalizáveis? O que impede (e portanto sustente) essa monotonia é a multiplicidade de ressignificações e deslocamentos aos quais se submete essa textura ideológica básica”.
Escrito por Rafael Morena às 11h16
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