Entrevista de Slavoj Zizek à imprensa argentina - Sobre a pós-modernidade
Qual seria o ideal humano que corresponde a nossa democracia liberal e a sua cultura pós-moderna? E o que se pretende com este ideal?
- Está muito na moda falar que a desintegração do comunismo em 1989 significou o fim da utopia e o ingresso a um mundo “pós-ideológico”. Sem embargo, os anos 90 viram o surgimento de uma autêntica utopia. Com o capitalismo liberal se tinha a fórmula. Tudo de que se necessitava então era difundir uma postura pós-moderna: nada de identidades fixas. Essa foi a utopia. (...) Tínhamos todas as respostas. Devíamos descartar a revolução porque vivíamos sob o melhor sistema possível. O que nos fazia falta era mais tolerância, multiculturalismo e liberdade sexual. (...) Muitos esquerdistas, pela influência do pós-modernismo, pensam que estes valores – multiplicidade, liberdade para eleger e reinventar a nós mesmos – constituem atitudes subversivas e revolucionárias, como se o poder defendesse valores conservadores.
E não é verdade?
- Não. Para dizer de uma maneira diferente, todos estes valores pós-modernos são da ideologia dominante: são originários dos velhos objetivos políticos, agora você é livre para dedicar sua vida ao único propósito de realizar-se em todos os níveis, desde ganhar dinheiro até fazer amor da maneira que mais gosta, mas também num sentido espiritual. Vejamos no campo da arte: Onde foram parar aqueles bons tempos em que a arte oficial era conservadora e a vanguarda se dedicava a provocar-nos? Na coleção Saatchi de Londres, que integra o circuito cultural estabelecido, se podem ver obras perturbadoras como vídeos de colonoscopías, merda, o que se quiser. Meu exemplo preferido é o da pequena cidade americana, não me recordo o nome, onde domina uma esquerda que defende essa idéia de potencializar todo o tipo de desejos pessoais. Não seriam os necrófilos vítimas de uma clara marginalização? Não é nosso dever como sociedade ceder certos corpos para o seu prazer? Esta é uma falsa permissividade, na minha opinião. Falsa em dois níveis. Primeiro, resulta evidente que em nossa vida pessoal somos livres de fazer o que quisermos, mas que decisões são as que realmente importam?
CONTINUA
Escrito por Rafael Morena às 12h35
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