Nós, os vagabundos! Carta aos colegas.
Eu nunca gostei de trabalho, sempre me esquivei. Todos os que me conhecem, principalmente aqueles que têm convivido comigo nos últimos anos de faculdade, sabem como eu não costumo tomar posição, fazer as coisas direito. Falta seriedade, eu sei. Infelizmente, sou malandro. A suposta esperteza vem de minhas raízes, de berço.
Minha malandragem está na forma passiva como encaro os estudos e as discussões acadêmicas. De fato, prefiro não entrar em debates acalorados, eles não levam a lugar nenhum. Trabalhos em grupo são problemáticos também. A única vantagem é que sempre tem algum aluno aplicado pra carregar minha vagabundagem e preguiça nas costas. Nunca contribuo em nada.
Mas qual seria a razão desta carta? Bem, milagrosamente, algo me saltou à consciência e eu precisei pedir desculpas, de alguma forma, por ter atrapalhado tantas pessoas durante tanto tempo. Cansei de ser visto - acertadamente, reconheço – como um parasita. Podem ter certeza que, de agora em diante, tentarei ser melhor, mais honesto, mais digno de conviver com colegas tão esforçados. Espero que me perdoem pelo passado e que possam apagá-lo por efeito de minhas ações futuras.
Talvez vocês consigam se esquecer de meus grandes erros. Talvez assim eu mereça não sofrer mais pela reprovação e o rancor que suscitei.
Humildemente,
Rafael
Escrito por Rafael Morena às 18h00
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A Foto - Comparações
Ela disse “Eu te amo” e eu me lembrei daquela foto. Uma imagem que me traz memórias de um passado não vivido. Passado obscuro, portanto. Capaz de desencantar os mais felizes momentos.
Fiquei atônito. Foi a primeira vez em que me falou do que sentia. Aquilo que me surpreendeu, apesar disso, foi a descoberta de suas dissimulações. Naquela foto, a qual eu tive acesso por uma série de coincidências, ela está junto a um casal amigo, o mesmo que costuma dizer que eu sou “o homem perfeito para nossa irmãzinha”, e também a um outro homem que eu não conheço. Talvez ele tenha sido tão perfeito quanto eu. Talvez ela tenha dito “Eu te amo” para ele mais vezes do que para mim. Talvez mesmo naquela boate da foto, logo depois que foi tirada.
Seus olhos esperavam resposta, mas eu apenas conseguia pensar em formas de mostrar toda a minha raiva. Poderia falar de meus relacionamentos anteriores, ou silenciar. Poderia perguntar por onde andava o batom rosa que ela ostentava em seu largo sorriso na fotografia, e ao qual eu não tive o prazer de ser apresentado. Dissimulações... Não as suporto! Como tinha coragem de me falar de seu amor por mim, de imitar comigo o que não deu certo com seu primeiro escolhido? Ou pelo menos anterior, não sei. Aquele que veio antes, é o que importa.
O pior é que a angústia deveria ser sufocada. Isso não faz bem. Eu nunca poderia dizer que vi a imagem, nunca poderia desfazer as dúvidas. Estava tudo tão claro, afinal. Toda vez que nos beijamos, lembro da foto. Toda vez que fazemos amor, lembro da foto. Todo lugar que visitamos... Sempre tenho a certeza de que ela está me comparando com ele. Será que era barrigudo como eu? Tinha cabelos brancos como eu? Era mais alto? Não dá para saber. Apenas vejo um rapaz cheio de vida, alegre, bem diferente de mim e de meus sofrimentos. Sou um velho. Talvez tivéssemos a mesma idade, mas sou mais velho. Sem dúvida.
Foi quando decidi responder. Com muita facilidade avisei que não queria mais vê-la e que ela devia proferir aquela frase para os garotões saudáveis que existem por aí (e que ela tão bem conhecia) e que eu não queria mais andar junto com a corja de dissimulados que se diziam meus amigos (e que mentiam tanto) e que era velho demais para levá-la a boates e montanhas-russas e que gostaria que ela voltasse a usar o batom rosa guardado para quem merecia, e disse que não entendia o que ela havia visto em mim, se seu gosto era por surfistas e garotos de academia.
Seus olhos agora estavam bem abertos, assim como sua boca. Ela descobriu que eu sabia. Não importava mais. Sim, minha vida era desinteressante, não havia fogos de artifício, não havia intensidades e impulsos, não havia esforço muscular, queima de calorias. Não havia carros turbinados, gritos de “Uhuuuu” e óculos escuros. Eu não era chamado de “Don”, ou tinha qualquer outro apelido imbecil. Apenas podia oferecer minha solidão e tentar compartilhá-la. Não tinha condições de abastecer seu olhar de um brilho que parecesse com aquele que eu vi na foto. A tequila que me inebriava eram as palavras e seu poder. A dança que me divertia era a dos momentos fortuitos em que apenas uma presença se faz necessária para mudar todo o mundo e trazer esperanças transitórias a um coração amargurado. Isso é pouco, eu sei.
Virei minhas costas e fui embora. Ao chegar em casa, sentei na poltrona e decidi descansar, sem pensar no que havia ocorrido. Por um breve instante, senti paz. Foi o suficiente para justificar minha existência. Mas foi só um instante porque, de repente, quatro corpos se materializaram sob minhas pálpebras, todos abraçados, todos sorridentes, todos reconhecíveis. Por detrás deles, surgiu o balcão de um bar e no canto luzes de boate. Acabou minha paz.
Escrito por Rafael Morena às 21h58
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