Céu de Brigadeiro
Minhas pálpebras tremeram. O pensamento voava entre nuvens de chiclete, tão artificiais, tão comestíveis. Nuvens perecíveis, mastigáveis. Nuvens minhas, cambiáveis.
Tentei me concentrar. Havia tanto a ser feito. Ouvi a notícia pela secretária. Eletrônica. Minhas pálpebras tremeram, enquanto a voz robótica da mulher que eu dizia minha avisava a morte de minha filha. Acidente.
A ventania batia em meu rosto. Lá de cima, toda a vida parecia pequena. Movia meus braços como se fossem asas, apenas por diversão. Sabia que voaria de qualquer jeito. Mesmo que não quisesse, pelo menos flutuaria. Sempre foi assim. A voz que deveria ser de minha mulher, mas que era a ressonância de um emaranhado de fios, dizia sempre a mesma coisa – “Nossa filha está morta. Acidente”. – apenas isso, enquanto meus dedos tocavam o “replay” da secretária. Meus devaneios me levavam a diante.
Tão bom viajar sozinho por tantas paragens. Eu descia em alguns pontos. Lugares da infância, adolescência, de meus amores irresponsáveis, da vida que eu sempre quis perpétua. Acostumei-me com isso. Será errado desejar a eternidade da juventude, negar os cabelos brancos que começam a surgir, voar e voar pelas nuvens de chiclete num céu azul?
Era uma bola de ferro que me prendia ao chão. Como soltá-la? Minha mulher estava longe, assim como os restos mortais de minha filha. Não são essas as vantagens de um relacionamento moderno? O que elas queriam que eu sentisse, neste quarto belíssimo de hotel, neste spa paradisíaco, para o qual eu vim exatamente para escapar da realidade violenta de nossos dias atuais? Por que estragavam minhas férias? Queriam que eu me sentisse culpado?
Desde namorados, eu e minha mulher pautamos nossa relação na liberdade. Não confundíamos nossas vidas a ponto de sermos dependentes um do outro. Nada de conversas sobre o dia, o trabalho, nada de falar de familiares, não queríamos saber de primos, irmãos e pais alheios. Nos bastávamos. Voávamos juntos, de quando a quando, não tínhamos limites.
E agora tudo se desgastou. Minhas pálpebras tremeram. Fazia tempo que apenas passeávamos pela noite escura, e víamos somente as luzes pequeninas das casas. Eu mesmo, só saboreava a viagem de dia, se estivesse sozinho. Acho que desde que nossa filha falecida nasceu, não pudemos mais nos aventurar. Isso me corroia por dentro. Queria arrumar as malas, bater as asas até um ponto distante, divertir-me com minha eterna namorada, talvez deitar sobre uma das nuvens de chiclete e fazer amor. Há algo melhor que isso?
Mas, infelizmente, os grilhões pesaram. Caí feio no solo duro de minha triste vida adulta. Minha filha morreu e minhas pálpebras tremeram. Em alguma estrada esburacada por aí, talvez com alguns amigos no carro, seu corpo despedaçou-se. Nunca gostei de viagens terrestres. Mas ela, nos últimos tempos, só fazia isso. Não agüentava viver ao lado de um velho metido a garotão que falava em liberdade e sentimentos, mas que não dava atenção ao que ela queria dizer. Acho que foi a última coisa que ela me falou, antes de eu fechar a porta de casa e respirar o ar puro do meu céu sonhado. Havia lágrimas em seu rosto. Tão jovem e já tão amargurada. Isso era triste.
E lágrimas também correram de minhas pálpebras tremeluzentes. Chorei pela vidinha sem graça que minha filha teve. Chorei por ela nunca ter aprendido comigo que nenhum aborrecimento vale nesta nossa passagem rápida pelo universo. Chorei por causa da bola de ferro que teimava em me puxar. Havia tanto a ser feito. Família só serve para uma coisa: dar trabalho. E este é um preço muito alto a pagar, pelo menos para quem acostumou-se com as nuvens de chiclete.
Escrito por Rafael Morena às 09h13
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Alguns instantes de uma vida plena
Fumei um cigarro. O filtro queimou e a fumaça subiu. Evaporou no ar. Deito em minha cama e pisco lentamente, como quem está prestes a dormir. Não é meu caso. Apenas passeio por meus devaneios e faço, para mim mesmo, uma feição profunda, como quem tem muito a pensar e dizer.
Não é meu caso. Apenas celebro a preguiça de minha pós-história. Sozinho. A vida passa pela janela e a morte me faz companhia, sentada na poltrona. Ouço uma música distante, em alguma velha vitrola toca uma canção do Pink Floyd. Não sei qual é, não importa. Talvez nem seja Pink Floyd. Talvez nem seja uma velha vitrola. Talvez nem seja uma canção. Tento prestar atenção, como quem tem sede de saber. Não é meu caso.
Apenas ouço o silêncio de meu quarto escuro. As cortinas fechadas dão um clima aconchegante. Se não fosse pelos pregos... Vários deles me alfinetam, mas não saio da posição. Cama de pregos, cesto de serpentes. Estou na Índia, sou um faquir. Tenho uma espada nas entranhas. Engoli e não tenho como vomitá-la. Estou engasgado, como quem sente uma eterna angústia. Não é meu caso. Apenas sinto uma leve azia. Nada que mais um cigarro não dê jeito. Escolho um do maço, o acendo e dou uma forte tragada. Uma grande fumaça sai de minhas narinas e de minha boca, como de quem expele muitas verdades... Não é meu caso.
Escrito por Rafael Morena às 12h44
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Nada de radicalismos (“Não fale de Bob!”)
Ouvi isso de uma “amiga”, não faz muito tempo. Ela me disse isso depois de uma aula em que defendi minha convicção na ética psicanalítica, talvez não sem razão. Estávamos na Academia, lugar que deixou de ser de embate, para tornar-se ponto de masturbação intelectual.
Não é à toa que ninguém se importa mais com greves nas universidades. Elas deixaram de ter relevância social. O que se discute em sala de aula não interessa à sociedade. Há um acordo de almas, no velho estilo “faustiano”, de não se tocar em assuntos delicados. Falem de dobras, corpos sem órgãos, complexos, resistências, etc. Só não abram a boca para comentar a medicalização dos serviços em saúde mental (não há nada que se possa fazer), o combate à ética psicanalítica (numa cultura que apaga o sujeito), a psicologização excessiva das relações interpessoais (e seus efeitos políticos).
“Nada de radicalismos”, disse minha amiga. O professor não dá aula? Mas ele é tão gente boa! O professor dá um estágio de oito horas, sendo que três são de estudos e cinco de supervisão (a clínica fica entre uma e duas horas semanais)? Não se atreva a criticá-lo, afinal é o Bob e ninguém fala mal de Bob! Bob é bonzinho, é amigo de todos nós. Fale dele e mostraremos a você o quanto não te respeitamos, “amigo”!
E assim vai. Todos sendo formados para serem burros de carga, débeis mentais que se contentam em dar pulinhos e gritar “U-huuuuuu” em boates numa sexta-feira violenta qualquer. “Panis et Circenses”, a mediocridade só tem a ganhar num ambiente destes. Tente lutar contra a mediocridade e você verá o que é sociedade de controle. Não precisa ler a merda do Foucault, ou decorar linhas de Deleuze (mesmo conseguindo estágio na Equipe Passos). Basta pensar, o que é difícil num curso como o de Psicologia...
Mas o maluquinho está lá, na esquina, dormindo debaixo da marquise. Ele anda de Icaraí até Charitas, entra no Jurujuba para receber “tratamento”. Uma patricinha qualquer o atende cheia de boas intenções. “Eu amo meus psicóticos”, ela diz, apesar de ter sido alertada milhares de vezes para manejar a transferência, e blá, blá blá... “Para quê? Eu sou especial!”. E se o maluquinho pega um caco de vidro e corta a própria garganta, fica na paty uma sensação de impotência, pois não havia nada a ser feito. Nada a ser feito, nem no hospital, nem na faculdade. Nada a ser feito, apenas pastar e recolher os dejetos sintomáticos de uma sociedade permissiva. Dejetos que são elididos de nossas formações, das quatro paredes de nossas salas de aula. O que é importante não entra. E não falemos mais em Bob!
Escrito por Rafael Morena às 07h34
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