Piscada Discreta

O Reverendo disse: “O amor não é apenas sentimento. Ele é acompanhado pela decisão. E não pára na decisão. Ele pede ação”.
Lembrei-me do imperativo de Marguerite Duras: o meio - o único meio - de se ter uma relação pessoal intensa e satisfatória não é o casal olhar nos olhos um do outro, esquecido do mundo em volta, mas, ainda de mãos dadas, olharem os dois juntos para fora, para um terceiro ponto (a Causa pela qual os dois lutam, em que os dois estão engajados).
Eu pensava nisso enquanto a cerimônia continuava, com mais um hino de louvor cantado em pé pelos crentes. Eu permanecia sentado. Aquela não era minha religião. Só estava ali porque era o casamento de meu amigo. Depois de ser abençoado pelo Reverendo, o casal virou-se para os convidados e preparou-se para sair da igreja. Não sem antes posar para fotos. Eu me emocionei com o evento, o sorriso em meu rosto era constante, mesmo com certos incômodos permanentes que costumam me impedir de saborear os momentos de forma plena. Mas nada com que eu não estivesse acostumado.
O casal estava virado para todos nós, familiares e conhecidos, quando o noivo me encontrou com seus olhos e piscou discretamente para mim, como que dissesse: "É, meu caro. Tudo mudou". Precisei me conter. Virei meu rosto para o ventilador que rodava preso à parede. Não pude encará-lo. Pensei em amassar o "programa" do casamento, que dizia quando me levantar, quando dizer "Amém", como cantar as canções. Amassá-lo e jogá-lo dentro de um dos vasos iluminados que decoravam o salão, deixando mais estreito o corredor central. Correr até marido e esposa, abraçá-los forte, falar sobre Marguerite Duras, sobre decisões e ações, dias felizes e tristes, além de tudo o mais que os ponteiros da história trariam a eles nos anos vindouros.
Mas me contive, como sempre. Até porque não seria conveniente invadir os quadros das câmeras digitais, atrasando a saída e a conseqüente festa. Dobrei o "programa" e guardei num bolso da calça. Serviria de lembrança. Só não sei de quê.
Escrito por Rafael Morena às 22h17
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Paisagens, ou seja, nada dentro.
Minha casa está vazia. Para fugir do tédio, sento na areia da praia e me banho de luar. Sim, a lua cheia está onde deve, mas sua luz não me toca. Sou feito de sombras.
Algumas pessoas passam por mim, correndo, exercitando-se na hora que podem. A água do mar é escura, apenas com espuma branca em suas ondas que logo desaparecem. De que adianta a paisagem? Há aqueles que falam nas belezas naturais, todos tão sensíveis... Mal sabem eles que o som das folhas das árvores ao vento, as flores coloridas, os animais campestres, enfim, a exuberância que nos circunda, não são importantes.
De que adiantam momentos vividos em solidão? O que há de marcante num Sol que se põe diariamente? Se não preenchemos esses instantes com humanidade, nada tem valor. Gostaria de parar de me preocupar com essa superficialidade, porém minha casa está vazia. Minha história é vazia e o que me resta é a contemplação pastosa do luar numa noite quente. Sob esta mesma lua cheia, homens mataram-se em guerra, amores se desfizeram, pessoas queridas faleceram, bêbados cantaram, bebês nasceram... E ninguém parou para observar a natureza. Agora eu, em minha avara sensibilidade, apenas olho para cima e digo: “Bacana!”, com um sorriso blasé, vazio, no rosto.
Escrito por Rafael Morena às 21h09
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Propriedade Privada - Viradas
Estamos evoluindo, século XXI avança. Sinto algo errado; trata-se de “ranzinzice” senil.
Ninguém precisa ler isso. Temos telefones e não os usamos. Temos bocas e não falamos.
Estamos imbuídos de boas intenções. Se não as tivéssemos, talvez pudéssemos amar.
Virando o ano e escrevendo. Nada muda com aqueles que mudam.
Querem que eu invente uma história? Ficarão querendo.
Só o que importa é meu Narciso. Estou aprendendo. Sou autor contemporâneo.
Sonhei com garrafas plásticas. Todas tinham nome. Eram meus amigos.
Minhas eternas companheiras, palavras, um brinde a vocês!
Fogos queimam pela televisão. Meu pai dorme no sofá.
O mundo grita gemidos de gozo. Cada um com o seu.
Sonhei com pilhas alcalinas. Todas tinham nome. Eram meus familiares.
E vi meu corpo feito de isopor. E da minha tosse saíam bolhas de sabão. E meu cabelo era palha de aço. E minha saliva era refrigerante light. E eu estava numa ilha deserta. E desejei levar para esta ilha deserta todas as pessoas do mundo. Só que elas não existiam mais. Portanto, desejei um notebook com conexão via satélite. E a partir dele vi todas as pessoas virtuais estourando champanhe numa praia. E perto dali, onde a felicidade transbordava a linha de borda entre normalidade e insanidade, ônibus explodiam e tiros espocavam. E mais longe, alguém era enforcado.
Queria dizer algo a alguém. Sabia o que era. Olhei para os lados, mas o quarto estava vazio. Fui ao espelho e, ao notar minha imagem embaçada pelo sono, disse baixinho, meio envergonhado: “Eu te amo”. E senti um gosto amargo na boca.
FELIZ 2007!
Escrito por Rafael Morena às 00h13
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