Cicatriz
E talvez seja apenas uma coceira. Vidas que seguem, que se esbarram por aí. Corpos estranhos, próximos; corpos conhecidos, distantes. Negatividade do ato. Escreva uma frase filosófica, enfie um conceito, e tudo ganha valor.
E talvez seja uma dor. Muda, discreta. O que deveria ter sido e não foi. Tudo errado e certo. Tudo singular. Não sabemos nada, imbecis. Olhamos nossos braços e pernas, nossos peitos arfantes, há várias cicatrizes. Elas representam aquilo que foi deixado pra trás, mas que sobrevive. Cada ponto tecido na pele, um incômodo diferente. Ces’t la vie. Escreva uma frase em francês, e tudo ganha em poesia.
E talvez nada faça sentido. Não tem historinha. Não tem moral. Nem início. Nem fim. Não há exclamações, ou interrogações. Mas também não existe certeza. E se eu tivesse... Há uma pluralidade de respostas.
E talvez isso seja um poema. Não importa. Versos... Se me preocupasse com isso, as emoções se guardariam, os afetos se comprimiriam, os hormônios se perderiam. E me calaria. Rimas, melodias, não há a menor importância nisso.
E talvez seja o momento de tirar os pontos, de deixar sangrar se for o caso, de portar a marca, aquele risco branco e fundo. E na profundidade da ferida, encontrar as lembranças que modelem meu presente, modificando o entorno, fazendo desaparecer as luzes azuladas das frestas, matando os fantasmas que me condenam, engolindo a saliva viscosa de minhas vergonhas passadas.
E talvez apareça, enfim, o futuro. E talvez...
Escrito por Rafael Morena às 08h25
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