Liberdade na mortalidade
"Na modorra das tardes vadias na fazenda, era num sítio lá do bosque que eu escapava aos olhos apreensivos da família; amainava a febre dos meus pés na terra úmida, cobria meu corpo de folhas e, deitado à sombra, eu dormia na postura quieta de uma planta enferma vergada ao peso de um botão vermelho; não eram duendes aqueles troncos todos ao meu redor, velando em silêncio e cheios de paciência meu sono adolescente? que urnas tão antigas eram essas liberando vozes protetoras que me chamavam da varanda? de que adiantavam aqueles gritos, se mensageiros mais velozes, mais ativos, montavam melhor o vento, corrompendo os fios da atmosfera? (meu sono, quando maduro, seria colhido com a volúpia religiosa com que se colhe um pomo)". (NASSAR, Raduan - Lavoura Arcaica)
Ser livre é ser mortal. A busca pela liberdade, de fato, não necessita caminho, nem caminhar. Não há o vale encantado, onde possamos ser aquilo que queremos, ou aquilo que realmente somos. Pois qual é nossa herança, o que nos faz humanos, senão a falta e o vazio de sentido? Por que escrevo hoje, aqui, senão por meio deste paliativo chamado de linguagem? O eu mesmo seqüestra o que vemos. Ele já é uma criação.
Não se trata, portanto, de expressão de uma interioridade fictícia. Daí já se sabe o que pode sair e não é nada de muito agradável que se obtém, quando se age por uma suposta liberdade de ser. É triste que, ainda hoje, haja pessoas que acreditam que a sociedade nos impõe restrições quanto nossas potencialidades.
O homem só constrói se reconhece a perda. É a dimensão da perda que a psicanálise restitui e que, por isso, faz dela maldita. Quem espera o ganho, não sai do lugar. E quando se fala de perda, não há nenhum pessimismo. Só se faz lembrar que, para todo ato, há conseqüências imprevisíveis. E a imprevisibilidade pressupõe tanto o ganhar quanto o perder.
Mas qual a razão de colocar-se o acento na perda? Pois é isto que se elide de nossas vidas no mundo contemporâneo: nossa mortalidade. O soldado que recusa-se a cumprir ordens que considera erradas, por exemplo, não estaria disposto a reconhecer que sua ação pode implicar numa perda?
Ao falar em mortalidade, não me dirijo aos suicidas. Ser livre não é pular de uma janela, de olhos fechados, e deixar uma cartinha explicando que se matou por não suportar a tristeza do mundo. Se deve haver suicídio, e eu creio nisso, trata-se de um suicídio de ideais. É a mortalidade do corpo ideal, do self, do Eu. Até porque já sabemos que enquanto pensamento, o Homem é imortal. Enquanto ato, o ser humano é sujeito. Concluindo, a liberdade do ser é a liberdade de morrer enquanto ser imaginário. E para isso, não é preciso ir a lugar algum, NEM FUGIR.
Escrito por Rafael Morena às 08h18
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Fantasmas
Sim, estou novamente em frente à máquina. A tela do monitor novamente ilumina o teclado. Novamente engasgo com as palavras que não sei dizer. E escrevo.
Mas não estou sozinho. De repente um rosto quente encosta-se ao meu e a mão conhecida repousa, num instante, no meu ombro. Sei quem é. Seus dedos correm pelas teclas e invocam lembranças.
“Ele estendia o braço para chamar o táxi, mas o envolvi em meus braços e o beijei. Não dissemos mais nada para o outro naquela noite. Fomos embora, cada um para o seu cantinho, sem saber que o início era o fim predestinado. Eu não pensava em nada, apenas que precisava de um cigarro”.
Sumiu, não sem antes dar sua risada infantil. Alguém estava atrás de mim. Seus longos cabelos batiam em minhas costas. Curvou-se e escreveu:
“Deitados na areia branca da bela praia da Zona Sul, brincávamos e eu, com meus olhos e pele e voz, tornava-o meu, mesmo que ele não soubesse disso, mesmo que se esquivasse, o bobo”.
E outros fantasmas apareceram. Mãos macias, calosas, envelhecidas, pequenas e grandes. Respirações ofegantes, calmas, algumas já inexistentes.
“Brigamos e nos machucamos. Éramos grandes amigos, por isso nenhum dos dois tinha coragem de desferir o golpe definitivo. Batíamos onde doía menos”.
“Voltávamos pela ponte, as rodas do carro fazendo todo o trabalho e ríamos alto, nós três, como pessoas insolentes que acreditavam, enfim, que era possível ser feliz”.
Relaxei e permiti que todos falassem.
“Sempre que olho para ele, fico triste em saber que um dia não nos terá mais ao seu lado. Mesmo conhecendo sua força”.
“Nunca gostei de elogiar ninguém. Prefiro atos a palavras. Talvez não sejamos tão próximos por causa disso, mas pelo menos sei que fiz por ele aquilo que era possível que eu fizesse. E isso me basta”.
Tão fácil deixar que todos se expressem, para além dos sentidos, para além das lembranças. Talvez destes fragmentos possa sair algo que me defina. Algo para o que poderei olhar e dizer: “Este sou eu”.
Ou não.
Escrito por Rafael Morena às 10h36
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