Interlúdio - Uma palavra
Não me contive e liguei o computador. No corpo, breves choques elétricos geram movimentos estranhos. Preciso escrever alguma coisa. A segunda parte de meu último conto? Não, de forma alguma. Uma palavra, isso basta.
Que horas são? Uma da manhã, já é tarde para as crianças ficarem acordadas. Ouço gritinhos histéricos de menininhas em algum quartinho pequeno-burguês de minha rua. E eu ainda pouso a vista no Word enquanto os minutos passam.
Uma palavra... A luz do monitor é a única de minha noite. Detesto feriados. Tudo pára. Quem me conhece sabe que eu não posso ficar parado, pois este é meu estado natural. Por favor, que ninguém tire conclusões medíocres disso. A madrugada corre e eu não tenho paciência para psicologismos.
Se não há um empurrão, permaneço estático. Sou como o velho carro de meu avô. Depois que o motor pega no tranco, precisa continuar em movimento. Feriados são os pedágios de minha vida.
Foco, Rafael! Concentração! Alguma espécie de religião maluca que te discipline um pouco mais. É disso que você precisa.
[RESPIRO FUNDO]
Agora tento achar uma palavra enquanto olho para o Word aberto na tela e meus intestinos mexem-se involuntariamente graças a comandos de minha medula espinhal e os minutos correm e menininhas gritam histericamente em algum quartinho pequeno-burguês de minha rua e os feriados se atropelam e tudo pára e vozes do além me pedem para ler o Dalai Lama e respiro fundo como os carequinhas do Tibet e, mesmo assim, nada me ocorre.
O melhor é desistir e deitar. Até amanhã, ou melhor, até hoje mais tarde.
Escrito por Rafael Morena às 01h30
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Interior - Parte 1
Éramos muito parecidos. Desde que a conheci, senti-me atraído pelo seu jeito discreto. Mesmo antes. Sempre tive um personagem como ela em meus pensamentos. Em todos os meus sonhos, imaginava como seria encontrar alguém assim.
Foi na adolescência que nós nos esbarramos, mas não por acaso. Estudamos juntos no colégio. Ela no canto direito da sala, próxima à janela que, nos dias chuvosos, a levava para longe em seus devaneios. Cada gota d’água que escorria pelo vidro era acompanhada por seu dedinho indicador e seus olhos tristes. Eu sentava ao pé da porta, no canto contrário. Pronto para fugir e matar aula andando sozinho pelos corredores silenciosos da velha escola. Caminhava com as mãos nos bolsos, a criar minhas histórias românticas.
Não nos falávamos. Eu a observava, porém nunca pensei que ela notasse. Nos reservávamos a alguns cumprimentos rápidos. Era distante, fria. Eu não fazia papel muito melhor no convívio social. Lembro-me de que, após muitas insistências, meus colegas mais próximos me convenceram de ir à festa de fim de ano da turma, cuja anfitriã seria a menina mais popular de todo o colégio. Fui sem ânimo. Surpreso, notei que ela também estava lá, talvez convencida por suas colegas mais próximas, que provavelmente tentavam ajudá-la a sair do casulo, a expandir-se. Como dois peixes fora d’água, transitávamos feito múmias por entre toda aquela felicidade juvenil. Ao ficar cheio do barulho e da música alta, refugiei-me na sala de jogos da casa e a encontrei ali, sentada num banquinho, olhando pacientemente para as próprias mãos. Viu-me e voltou a baixar a cabeça. Eu não sabia, àquele tempo, se esse gesto era sinal de timidez, ou indiferença. Ficava chateado em ambos os casos: no primeiro, por constatar a impossibilidade de um dia poder tê-la próxima, de permitir que os sentimentos que eu nutria se desenvolvessem; no segundo, por imaginar que a atração não fosse recíproca.
Fiz menção de sentar-me ao seu lado, mas sabia que isso não seria bom, pois ela levantaria e sairia no mesmo instante. Decidi ficar em pé e fazer de conta que me interessava pela mesa de totó. Tive a sensação de que seus olhos me fitaram por um segundo, mas até hoje não tenho certeza. Aquela situação me constrangia e humilhava. Eu era o rapaz mais covarde do mundo, suturando minhas angústias com tristeza e poesia. Vi que o melhor seria sair dali o quanto antes.
Deste dia em diante, não tivemos mais nenhum momento a sós. Não posso negar, agora que a idade já me pesa, que fui apaixonado por aquela menina. Nós estávamos ligados pelo meu amor e sua distância, seu silêncio, por mais implacável que fosse, não poderia mudar este fato. Contentei-me com isso e, depois de dois anos, seguimos nossos rumos distintos.
Escrito por Rafael Morena às 23h43
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Retificação a Bukowski
“Uma educação universitária poderia destruir um indivíduo para sempre. Os livros podem fazer de você um frouxo. Quando você os deixa de lado e vai ver como realmente são as coisas do lado de fora, então é preciso ter o conhecimento que não está naquelas páginas”. (Bukowski, Charles – Misto Quente)
Tanto o mundo de fora quanto o de dentro são o mesmo mundo. Algum velho francês disse que “o Eu é um outro” e disso podemos depreender, dialeticamente, que os outros somos nós. De sorte que não dá para dizer que os livros nos fazem frouxos. O conhecimento de que se trata na experiência prática é de si mesmo, ou seja, do desconhecimento que permeia a sua vida. A implicação que o tal “mundo de fora” exige é de um tipo diferente do que nos pede a leitura. Mas nem por isso deixa de ser subjetiva. Se você é um frouxo, o será com, ou sem livros.
É claro que existem aqueles que se refugiam das questões prementes de suas vidas nos livros, joguinhos de videogame, ou cursinhos diversos. Mas repetindo: estas atividades, em si, não são responsáveis pela alienação.
Escrito por Rafael Morena às 07h12
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