Desenho animado
Acordei com uma vontade de matar alguém. A única pessoa que estava em casa comigo era minha mãe. Deitada, devia estar sonhando com anjos. Ajoelhei-me ao seu lado da cama e a beijei no rosto. Ela despertou e ao me ver disse “Bom dia”. Sorri afetuosamente.
Abri as cortinas do quarto e notei que o céu estava bonito. Nenhuma nuvem, nenhuma névoa. “Preciso comprar uma arma”, pensei. Uma leve brisa me deu arrepios. Tomei o café e sentei no sofá da sala para assistir televisão. Era cedo ainda, diverti-me com desenhos animados. Minha mãe fazia as tarefas domésticas e cantava músicas sertanejas ao mesmo tempo.
Chegou a hora em que ninguém tem desculpas para ficar dormindo. Peguei meu celular e liguei para meu amigo de infância, Marinho. Ele era policial há dois anos, o suficiente para dizer que estava graduado e que podia ser elevado ao grau de “corrupto”. Perguntei sobre o Flamengo, o que ele achava das eleições presidenciais e se ele tinha algum revólver disponível pra me vender. A resposta foi afirmativa, positiva, como tudo que as cartilhas de boa convivência nos ensinam.
Meia hora depois, encontrei-me com ele na lanchonete da esquina e fizemos a negociação. “Livre mercado, livre mercadoria”, balbuciei e ele riu. Chamou-me de “figuraça”, o que não chega a ser um elogio, já que todo mundo hoje o é. Foi embora, “ao serviço”, sem antes me convidar para ir ao Maracanã no “finde”. Guardei minha compra na mochila e voltei pra casa.
Abri a porta dos fundos e senti o cheiro gostoso que vinha da panela de feijão. O almoço já estava sendo feito. Saquei o calibre 38 e apontei para minha mãe que se espantou, parou de cantar e deixou a faca que cortava a carne dos bifes cair no chão. Foi o ínfimo tempo, tempo bastante para que eu colocasse o cano gelado em minha têmpora direita e atirasse. No instante seguinte acordei assustado e, olhando e reconhecendo meu quarto, senti um alívio... Um alívio e uma vontade imensa de matar alguém.
Escrito por Rafael Morena às 22h18
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