O Corredor - Parte I
Não gosto de palavras. Elas são perigosas. Dependendo do que se diz, pode-se sofrer de angústia e eu não preciso disso. Na verdade, sou calada por timidez. Sempre fui assim. Apenas falo com alguns escolhidos, todos loucos. Não, diria melhor, excêntricos.
Anabela é uma com quem posso trocar frases. Toda vez que o telefone toca, em tardes de sábado, sei que ouvirei sua voz clara e decidida. “Nanda?”, ela pergunta, como se pudesse ser outra pessoa, “vamos tomar um café?”. Com muito esforço respondo que sim, me arrumo depressa, para não fazê-la esperar demais e desço o elevador com o cuidado de não me olhar no espelho. Minhas mãos suam.
Chego ao café e sou recebida por um largo sorriso de minha expansiva amiga, que me aguarda numa mesa de calçada. Usa sandálias, calça jeans e blusa sem mangas branca. Faz o estilo despojado, completo com seus óculos escuros gigantescos e chamativos. Eu imaginava que se tentasse me vestir daquela maneira, ficaria ridícula, pois é necessário ser alguém diferente de mim para cair bem em tal figurino.
Ela me diz que está com saudades, que eu poderia telefoná-la de vez em quando, que queria saber das novidades e contar as dela, como o caso com o jovem advogado por quem ela não sentia nada, mas tinha pena de dizer, era uma mulher independente, não podia ficar presa num homem só, e ele nem fazia o tipo “pra casar” e nossa (!), não acreditava que tinha usado a palavra “casar”, de fato, havia pensado nisso, mas várias questões ficaram abertas, tipo o que fazer com o apartamento, como conciliar a carreira médica com um relacionamento estável, como suportar outro corpo compartilhando o mesmo espaço e por que pensar em tantas besteiras, já que não sentia nada por ele, não amava aquele imbecil!
Lágrimas escorrem pela fresta entre sua pele e o plástico dos óculos Ray-Ban. Tento consolá-la, mas não sei fazer isso. Simplesmente não me comovo. Isso é horrível, mas não posso negar. Apenas sinto um desconforto, um constrangimento que só faz aumentar minha vontade de voltar para casa. Invento uma série de desculpas em minha mente. É tão fácil se esquivar da vida. Tão fácil que às vezes somos capazes disso mesmo sem saber.
Escrito por Rafael Morena às 21h58
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No devir da pós-modernidade
É lugar-comum falar na confusão do mundo contemporâneo. Há uma ideologia (sim, pasmem) que defende fundamentalmente o estado de desordem como criador de subjetividades e devires, contrapondo-se à razão Iluminista.
Reducionista. Este é o nome que se dá a todo sistema de pensamento, a qualquer tentativa de construção de um projeto capaz de lidar com os dilemas atuais de maneira total. Diz-se que isto representaria um empobrecimento das capacidades intelectuais e das potencialidades humanas.
Extremista. Vivemos sob a égide do pluralismo chapa-branca. Lentamente, o fenômeno do extermínio da crítica vem se aprofundando. Diga que não respeita alguma coisa e ouça acusações de preconceituoso, intolerante. Ter pensamento realmente crítico ocasiona um completo isolamento. Talvez passem a existir guetos para tais infames criaturas.
É curioso notar que na onda da multiplicidade e da auteridade, aqueles que se prontificam a questionar a própria cultura que sustenta essas idéias são postos de lado. Ou seja, de fato há um lado obscuro na pós-modernidade. Para que se aceite a singularidade e a sociedade da opinião é preciso que a singularidade e as opiniões convirjam para o mesmo ponto. É preciso que se comungue do Mesmo.
Para que se possa quebrar a corrente da igualdade bovina de maneira realmente relevante, faz-se necessário pagar um preço que parece alto demais nos dias de hoje. Coloca-se em questão a vontade propriamente subjetiva em contraposição à liberdade dita subjetiva que mascara nossas relações contemporâneas. Trata-se de transformar o mundo através de uma proposta ética que, longe da banal e politicamente correta acepção que é dada a este conceito, seja representante de uma visada firme que restitua a força da coletividade, para além das superfícies. Ou, como nos diz Zizek:
“Fuga para a privacidade hoje significa adotar as fórmulas de autenticidade privada propagadas pela indústria cultural recente – desde as lições de iluminação espiritual, a última mania cultural e outras modas, até as atividades físicas da corrida e do fisiculturismo. A verdade última do retiro na privacidade é a confissão pública de segredos íntimos num programa de TV – contra essa espécie de privacidade, devemos enfatizar que hoje a única forma de romper as restrições da mercadização alienada é inventar uma nova coletividade”. (Zizek, Bem-vindo ao deserto do Real!)
Escrito por Rafael Morena às 07h53
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