Café
Levantou-se para preparar um café, mas ao invés disso, abriu a janela do quarto e demorou-se a devanear, enquanto o Sol nascia por detrás dos prédios. “Sim”, ela pensou, “existe um lugar de onde tudo pode ser visto, onde o horizonte e eu formamos apenas um”.
Morava no último andar do edifício, apenas podia ver pequenos bonequinhos andando nas calçadas lá de baixo. Em sua cama, dormia o homem para quem havia se entregue na noite passada, o primeiro de sua vida. Ela estava com vinte anos de idade, achava-se velha, como se tivesse deixado muitas coisas para trás. E ali, naquele instante, debruçada no parapeito, sentia que sua impressão era certa. Perdera muito... Porém a constatação não lhe tirava o humor leve. Não se importava com o perdido e sim com o que haveria de ganhar, de agora em diante.
Pois finalmente encontrava-se junto aos outros, ao homem da cama e aos bonequinhos lá de baixo, compartilhava com eles todos os sofrimentos, alegrias, sentimentos em geral; enfim, tudo aquilo que ela julgava apenas seu, todo o mundo que construíra nos solitários anos de juventude, ruíra com facilidade surpreendente, criando uma nova vida. Ao invés do concreto, do metal e dos vidros, notaria os raios que passam por entre eles e queimam a face. Para além das sombras, companheiras mudas, conviveria com gente.
O Sol já brilhava lá no alto e o movimento urbano gerava seu murmurinho quando ela voltou a si e lembrou-se de que tinha um café a fazer. Café mais doce que todos os outros, café feito para todo o mundo.
Escrito por Rafael Morena às 10h25
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