Zaratustra desceu a montanha...
... para a qual subiu ainda na juventude. Viveu entre os homens tempo demais para saber que a cidade não era o seu lugar, construiu um chalé próximo ao pico gelado dos Alpes, e lá morou solitário até a velhice.
Mas o velho desceu a montanha. Em sua confortável moradia havia uma extensa biblioteca com todos os clássicos da literatura e da filosofia. Toda segunda-feira saía para cortar lenha num pequeno bosque ao pé da montanha. Lá corriam livres os lobos e alguns alces, pois nenhum outro homem pisara ali antes, ou depois do velho sábio. Zaratustra admirava a natureza intocada e lá sentia-se em paz com sua verdade.
O erudito senhor de barbas longas e grisalhas tomou a decisão de descer a montanha e rever a sociedade depois de ter lido todos os clássicos,e de ter adquirido o conhecimento necessário para colocá-lo num patamar imortal, de onde via os outros homens de cima. Dobrou algumas mudas de roupa leve, pois lembrava-se do calor citadino, e colocou-as numa surrada bolsa de couro de seus tempos idos. Jaziam ambas, a bolsa e o tempo, no fundo empoeirado de seu armário.
Após longa viagem pela estreita trilha que ele mesmo abrira, pôde ordenar todos os seus pensamentos, mas apesar disso não conseguiu evitar um certo frio na barriga ao ver as velhas casas de sua infância e adolescência. Entrou acanhado pelas ruas vazias da manhã. Rumou, sem olhar muito para os lados, até a antiga hospedaria de seu conhecido Afonso. A família dele mantinha o estabelecimento a séculos... Provavelmente ele ainda existiria.
Estava certo, obviamente. Bateu na porta do casarão de três andares e não demorou para que um senhor a abrisse. Perguntou o que desejava, no que Zaratustra respondeu:
“Preciso de um quarto, Afonso. Quero dormir, pois estou muito cansado. Foi um longo caminho até aqui”.
O dono da hospedaria, como se não o reconhecesse, estranhou ser chamado pelo nome, mas não se importou, pois muitos o conheciam; era um homem popular. Guiou o novo hóspede até um quarto limpo e arejado. Perguntou a Zaratustra se ele compareceria à festa dos reis, na praça central.
“A festa dos reis? É hoje à noite? Bem, se não ia quando garoto, não devo ir agora. Prefiro descansar, dormirei até amanhã, com certeza!”
Afonso desejou-lhe bom sono, fechando a porta. O velho sábio recolheu-se à cama e antes que pudesse pensar em qualquer coisa, apagou.
CONTINUA
Escrito por Rafael Morena às 06h42
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Citando Gombrowicz - Trecho de seu diário
"Você pensa que está se aproximando da arte voluntariamente... Na verdade, uma mão (sic) o agarrou pelo colarinho, arrastou-o até este quadro e o lançou de joelhos... Aquela não é a mão de um único homem, a vontade é coletiva, nascida numa dimensão inter-humana, muito estranha a você. Portanto, você não admira em absoluto, mas simplesmente tenta admirar".
Escrito por Rafael Morena às 06h43
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Mistura: Certas Mudanças
Creio que é fácil para todos nós dizer: “Mudei”. O complicado sempre foi sentir as mudanças, de certa forma que simplesmente seja impossível voltar atrás.
Dito isto, estava eu – devida rigorosa contenção de despesas pós-Dia dos Pais (e lá vem aniversário de mamãe) – estava eu ouvindo um cd de Schubert (não mais Dave Matthews) numa noite de Sexta-Feira. A primeira canção, “A truta”, é interessante e cativante, porém depois dela veio uma série de concertos chatíssimos, mas eu não saía da minha posição, sentado no pé da cama, olhando feito uma besta, um perfeito boi a ruminar, forçando-me a apreciar aquilo.
“De repente, não mais que de repente”, conscientizei-me de minha situação ridícula, minha tentativa violenta de gostar do que puramente não gostava. Numa última esperança de emocionar-me com Schubert, deitei-me, trancei as mãos por baixo da cabeça, mirei o leve movimento do ventilador no teto e busquei nas notas musicais a genialidade do mestre que todos os críticos, do século XIX até hoje, aplaudiram.
“É em vão que tua imagem chega ao meu encontro, que não entra onde estou, que mostra-a apenas. Na parede do meu olhar só poderias achar a tua sombra sonhada”. Fracassei em meu intento. Cheguei à conclusão, como num passe de mágica, de que devo ser mais honesto com meus sentimentos, corajoso o bastante para admitir meus gostos pessoais, sem me preocupar em agradar quem quer que seja. Moldar-se às idéias pré-definidas, fechadas, sempre foi algo que não me agradou, porém nunca enxerguei o fato de que faço isso, de forma que não sei o que me pertence e o que é cópia de outros. Decidido, tirei o cd de Schubert e botei um de Bach, como gosto dele! Não, não é verdade! Gosto de algumas canções apenas; somos seres reducionistas. Ouvimos uma boa música de um compositor e já compramos seu álbum, para sempre ouvir apenas aquela canção que nos prendeu a atenção inicialmente. Só que, para os amigos dizemos: “Gosto muito de fulano!” Nunca mais farei isso...
Espera aí, creio que iludi-me! Pois, na verdade, foi a mistura de minhas leituras mais recentes, “O Lobo da Estepe”, “Seminário 11” (a parte sobre a pulsão escópica) e “Ferdydurke” que me influenciaram e me fizeram ver as coisas desta forma, ou seja, continuo preso aos pensamentos alheios... Hermann Hesse, Jacques Lacan e Witold Gombrowicz é que escreveram este texto, não eu. Ou seja, continuo o mesmo.
Escrito por Rafael Morena às 07h28
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