Para que ninguém leia
Será que algum de vocês já passou por isso?
Passar pela infância e adolescência acreditando em ideais, quaisquer deles (pois existem muitos) e um dia notar sua profunda incapacidade de segui-los. Acreditar, por exemplo, que chegará o tempo em que suas relações deixarão de ser passageiras, suas amizades se solidificarão e seus romances se tornarão um só, permanente. Descobrir, sem saber como, talvez na preguiça de uma manhã debaixo de lençóis, ou na quietude senil de uma poltrona confortável, ouvindo Bach depois do trabalho cansativo, enfim, descobrir que aquilo que almejava e considerava como sua herança por direito, não lhe foi permitido. Não que tenha sido roubado por mãos ladinas, tampouco negado pela maldade alheia, mas apenas impossível por você ser quem é.
Daí todas as tentativas em vão de remodelar-se, de fazer de sua argila uma estátua um pouco mais graciosa, um tanto menos hostil. Só que todos sabem o resultado: quem não conhece as figuras bizarras e excêntricas que nascem deste malogro? É o mesmo que tentar fazer um cachorro andar em duas pernas. Alguns riem, outros sentem pena e alguns sentem raiva. Sim, sei que irritei muita gente (sem querer, apesar das aparências), podei os sentimentos que várias pessoas já quiseram me entregar e desdenhei inconscientemente de uns poucos que me atrevi a aceitar.
Nós podemos sempre fazer um catálogo de nossos inimigos, daqueles que nos magoam e atacam. Estou farto, não estariam vocês também? Não é melhor, mais produtivo mesmo, falar de si mesmo sem auto-indulgência, sem medo de parecer ingênuo? Buscar o Céu, que também é conhecido como Inferno, lá em suas entranhas, onde os malditos pensamentos não chegam e de onde se irradiam dores agudas, náuseas angustiantes?
Não pensem que ando triste e mau-humorado como sempre, pelo contrário. Hoje acordei feliz e satisfeito e isso me obrigou, pela constituição própria de minha condição patológica, a escrever esse pequeno manifesto pela inacessível sanidade, que por mais sincero que seja, será sempre uma mentira; e por mais dissimulado que pareça, sempre trará algo da mais pura e ridícula verdade.
Escrito por Rafael Morena às 21h06
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