Corpos I - Carícias e Empurrões
Correndo! Correndo e parado. Parado e deitado... Leio e escrevo poemas. Formo uma cadeia de sílabas, as palavras se sucedem, isto é poesia. Cada músculo retesado, cada verso explorado e um mundo sereno e quieto. É noite!
A cama é estreita e infinita. O lençol alvo cobre meus poros: carícias microscópicas. Permaneço alheio ao espaço, não distingo o perceptível. Antes de ela existir eu era apenas um corpo, depois do choque de nossas peles ocorreu a simbiose, tornei-me dois. Agora que ela se foi, dissolvi-me no vazio, ou seja, em tudo. Sou água e alga, elemento e vida.
Levanto-me e caminho até o banheiro. Conto os passos, cinco longos passos. O ar pesado cede ao meu movimento, eu passo ao largo. Acendo as luzes, fecho a torneira, pois a banheira está preparada. Despejo o sabão e dispo-me. Coloco-me dentro daquele retângulo e desloco um pouco de água, que transborda. A espuma sobe e me cobre. Faço bolhas de sabão e vejo nelas, apenas em suas superfícies (elas são vazias), reflexos de dias felizes, quando eu era dois. Mergulho.
Estou no alto de uma montanha, que se conecta a uma outra por linha tênue. Sou todo o vento e as rochas, por isso sei que, ao atravessar esse caminho perigoso, encontrarei o meu tesouro. Ouço sua voz me guiando: “Ande sempre em reta, não olhe para baixo, continue”. Estou cego, porém não penso; apenas sigo suas instruções. Sinto a corda balançar com meu peso. Passo a passo, eu os conto: um, dois, três, quatro... Cadê ela? Silenciou-se... Travo meus movimentos – meu corpo também cala. A corda não deixa de balançar, na verdade, sacode mais. Estou inerte, sozinho. Com muito esforço me equilibro. Desesperado, grito: “Te amo, porra!”.
De repente, duas mãos pequenas e macias encostam-se a meu peito. Apenas balbucio: “Te amo!” Leve brisa faz cócegas ao meu ouvido; é o ar que sai de seus pulmões. A corda parou de sacudir... Escuto com calma o que me diz:
O mar dissolve tanta coisa
E a lua leva embora tão mais
Do que sabemos –
Assim que a lua baixa
Com sua auréola vermelha
E o mar se apossa de nós
As cidades se dissolvem como sal-gema
O açúcar funde fora da vida
O ferro some como velha mancha de sangue
O ouro se transmuda em sombra verde
E o dinheiro sequer deixa um sedimento:
Só o coração
Cintila em seu triunfo salino
Sobre tudo o que soube e agora foi-se
Na salinidade do nada.
Minhas lágrimas salgadas escorrem de meus olhos inúteis. Aquelas mãos macias me empurram com violência. Começo a cair, cair... O que me espera lá embaixo? Continuo a cair, cair... Como se não houvesse fim. Só que bato em algo, enfim. É água!
Levanto-me de um pulo. Estou na banheira, respiro fundo. Foram devaneios, apenas isso. É hora de voltar para a cama, antes que amanheça... Preciso descansar. Não me esqueço das montanhas; amanhã tentarei novamente!
Escrito por Rafael Morena às 07h24
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