Pensamentos Contemporâneos


Certos presidiários preferem a cadeia. Mas há vezes...

Hoje eu estava com vontade de publicar mais um trecho do livro “Bem-vindo ao deserto do Real” de Slavoj Zizek, como foi feito no post abaixo. Porém, devido ao processo de desgaste com a Psicanálise, fiquei sem paciência de pôr a idéia em prática. Também tenho me incomodado muito com o uso de frases alheias, frias. Queria falar algo de relevante. Mas é claro que não farei isso.

Talvez um poeminha, uma letra de música, coisas do tipo. Não, definitivamente não sou sutil o suficiente para escolher versos bonitos, cheios de significados. O blog precisa continuar no rumo novo que dei, só que não sei para onde o estou levando. Quando releio tudo que escrevi desde 2004, penso em quantos momentos foram diluídos, destrinchados, apagados em linhas e linhas... Uma prisão, uma espécie de solitária de letrinhas.

 

Mas precisa continuar...

 

... Só que não hoje.



Escrito por Rafael Morena às 23h30
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Felicidade e o silêncio Zen

A felicidade é, para usar as palavras de Alain Badiou, não uma categoria de verdade, mas uma categoria de simples Ser e, como tal, confusa, indeterminada, inconsistente. A “felicidade” pertence ao princípio do prazer, e o que a solapa é a insistência em um além do princípio do prazer.

Num sentido lacaniano, deveríamos então postular que a “felicidade” se baseia na incapacidade, ou aversão, do sujeito de enfrentar abertamente as conseqüências de seu desejo: o preço da felicidade é permanecer o sujeito preso à inconstância do desejo. Na vida diária, (fingimos) desejar coisas que na verdade não desejamos, e assim, ao final, o pior que pode nos acontecer é conseguir o que “oficialmente” desejamos. A felicidade é, portanto, intrinsecamente hipócrita: é a felicidade de sonhar com coisas que na verdade não queremos.


O livro de Doug Richmond, “How to disappear completely and never be found”, demonstra a diferença entre o Zen budismo propriamente dito e sua versão ocidental: a verdadeira grandeza do Zen é ser ele irredutível a uma “viagem interior” ao “verdadeiro Eu” de alguém: o objetivo da meditação Zen é, pelo contrário, o completo esvaziamento do Eu, aceitação de que não existe Eu, nenhuma verdade interior a ser descoberta. É por isso que os autênticos mestres do Zen estão corretos ao interpretar a mensagem básica do Zen (a liberdade está na perda do Eu, na união imediata com o Vazio primordial) como idêntica à completa fidelidade militar, à completa obediência às ordens e cumprimento do dever sem concessões ao Eu e seus interesses. É assim que Ishihara Shummyo explicou essa questão como um ato de interpelação que alcança diretamente o assunto, contornando a dúvida ou questionamento histérico:

 

“O Zen é muito meticuloso com relação à necessidade de não interromper a própria mente. Tão logo se bate a pedra, a fagulha salta. Não há lapso de tempo entre os dois eventos. Ao receber a ordem de olhar à direita, o sujeito olha à direita, rápido como o raio... Se o nome de alguém é chamado, por exemplo, Uemmon, deve-se responder “Presente” sem parar para entender a razão por que seu nome foi chamado... Creio que quando se é convocado a morrer, não se deve manifestar a menor agitação”.

Longe de denunciar esta postura como monstruosa, devemos perceber nela uma indicação de como o Zen autêntico difere de sua apropriação ocidental, que o insere na matriz da "descoberta do verdadeiro Eu". A lógica de "uma viagem interior", levada ao extremo, nos coloca diante do vazio da subjetividade e assim obriga o sujeito a assumir sua completa dessubjetivação. O que o budismo ocidental não está disposto a aceitar é ser o próprio Eu a vítima última da "viagem ao Eu".



Escrito por Rafael Morena às 06h56
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A tentativa de ser homem após sua extinção, ou a praga dos caracóis

Por que o blog? Não sei responder, mal consigo lembrar-me das razões que me levaram a criar esse espaço (virtual). Sei que naqueles tempos, nos idos de 2004, estive mais severo do que nunca, quase irascível. Minhas amigas da época, Carol, Adele, Paula, etc, estão aí para confirmar.

Muita coisa mudou. Também não sei o que foi. “Você melhorou”, é o que eu ouço. “Realmente, era difícil te aturar”, alguns dizem. Realmente, eu não tinha medo de dizer o que pensava, diretamente, para aqueles que me aborreciam. Com certeza, muitos se lembrarão do meu conceito de amizade: “Ser amigo é não ceder à bajulação, é criticar, dar a cara à tapa, ir ao limite de destruir a amizade, se isto for benéfico ao seu amigo”. Não é à toa que, ao conhecer a psicanálise, encontrei um mundo em que eu não era estranho.

Mas veio o silêncio. Cansei de brigar, perdi o ímpeto, deixei o solo firme da identificação. É como se tivesse feito uma análise pela metade. Certas frases tornaram-se difíceis de serem ditas. Qual a razão do silêncio? É a tentativa de não enganar, de não permitir que mágoas, culpas, tristezas se apresentem. Várias justificativas, desculpas, que custaram a serem enterradas, e que vêm à mente com constância. “Você é culpado!”, “Eu te amo”, “Estou deprimido”, etc. Perdi a crença nas palavras - tão vazias – só que ao mesmo tempo abandonei o Ato, por ser deveras desagradável para mim e para os outros.

Portanto é curioso notar que, ao mesmo tempo em que desconstruí minha neurose, tentando não permitir que nenhuma identificação tomasse seu lugar, também destruí o que existia em mim da posição chamada “masculina” (claro que não totalmente). Me encolhi, me escondi, com medo da fragilidade que apareceu, tornei-me um caracol.

E daí? Não escreveria isso se não notasse que este caso, longe de ser individual, talvez possa se articular e encontrar ressonância em todos os ditos homens modernos. Não vivemos sempre na contradição entre o que queremos fazer, enquanto homens, e o que podemos fazer, sufocados pela contemporaneidade que exige de nós uma postura maleável, infantil? Por acaso, não sabemos que o abandono e a solidão são as recompensas àqueles que não cedem (ou tentam não ceder) à infantilidade? Largamos o “tudo pode acontecer”, expressão máxima do Ato, somos os caracóis do “agora é tarde”.

Estou certo? Ou será que esqueci de algo?

Escrito por Rafael Morena às 08h06
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