Pensamentos Contemporâneos


Mande notícias!

Querido amigo,

 

Só repetirei mais uma vez aquilo que já te disse em inúmeros emails e mensagens de Orkut: você é muito especial para mim. Acho uma pena que tenhamos nos distanciado, mas eu sou assim: ando sempre atarefada e acabo não encontrando o tempo para estar com pessoas queridas.

Foi por isso que ontem não pude ir ao restaurante, onde você deve ter ficado me esperando, e por isso peço desculpas. Precisei fazer algumas coisas, solucionar certos problemas, coisa de advogada, você sabe.  Lembra-se de quando éramos apenas estudantes, todas as festinhas e loucuras que podíamos fazer? É claro que sim, que bobagem a minha, se não tivesse esses momentos guardados na memória, não me procuraria ainda, até hoje. Sou muito grata por isso.

Sabe, naquela época eu cheguei a pensar que nós acabaríamos namorando. Já estou eu falando demais, decidi escrever apenas para me desculpar do “encontro desencontrado”, como diria minha querida avó com sua feição desapontada, sempre quando algum dos meus planos falhava. Nunca deixei de ser medrosa, a pobre não conseguia me entender. Apesar disso, me tratava com muito carinho e atenção, pois sabia que eu precisava de mãos macias que acalmassem meu mundo apressado. Sinto saudades dela.

Bem, já vi que este será mais um de meus longos monólogos, não sei se você terá paciência de lê-lo. Tenho esperança que sim, pois de um amigo sempre devemos esperar compreensão e interesse, e é dessa forma que tenho recebido suas mensagens e telefonemas. Talvez meu estilo seja um pouco enfadonho, mas é difícil para alguém com a minha profissão não tornar a “pena fria”, numa outra expressão de minha avó.  Se existisse o céu, tenho certeza de que, neste instante, ela estaria com a mesma cara de desapontamento e, talvez, com um pouco de vergonha.

Eu também estou envergonhada. Uma mulher, uma doutora, de quase trinta anos (veja só!), falando como uma menininha... Não sei o que te faz me procurar, você que sempre foi tão alegre e divertido, mas também sempre muito maduro, com seus dois pés no chão. Lembra-se de como eu era sonhadora? Eu sei que te provocava graça com meus devaneios, mas você continha o riso, o que me deixava ao mesmo tempo agradecida e triste. Parece que, quanto mais tentamos agir de uma maneira ideal, mais deixamos transparecer nossa verdadeira índole, nossos medos e dúvidas.

Com certeza, naqueles tempos em que estávamos sempre juntos, você sentia algo por mim, eu podia ver nos seus olhos. Sei que é clichê, mas as mulheres não têm nenhuma dificuldade de encontrar num olhar a sombra do desejo. Não conseguia entender, porém, a causa de sua hesitação. Aos poucos compreendi que você não me achava preparada, que me via como uma criancinha. Era como se tudo estivesse escrito para acontecer, como uma promessa de futuro. Nunca perdemos totalmente o contato, graças ao seu empenho, principalmente. Nos últimos meses, o tom de nossas conversas mudou. Fiquei feliz por receber de novo palavras que denotavam paixão, palavras que estavam escondidas dentro de mim.

Mas já falei besteiras demais. Apague este email depois de lê-lo. Sério, não o guarde. Lá vem você me fazer sentir novamente como uma doida adolescente. Desculpe-me por ter furado o encontro, não proponho outra data porque não sei se conseguiria honrá-la. Também não tenho certeza se ainda quer me ver. Por favor, vamos manter nossa amizade, pois ela me é tão cara. Bem, fico por aqui. Preciso voltar ao trabalho.  Vê se não some! Mande notícias!

 

Beijos

De sua fiel amiga.



Escrito por Rafael Morena às 19h13
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Um pouco de cinema

“Nós descendemos de pessoas que nos ensinaram a acreditar que a vida é uma luta e que, se alguma vez você se sentir realmente feliz, seja paciente: isso vai passar”.– frase de “A Praire Home Companion”, filme de Robert Altman, ainda inédito, mas já candidato ao Oscar do ano que vem.


A querida Belle Ville foi perdida. Blanche DuBois, desamparada, viaja de trem para New Orleans em busca de sua irmã, Stella, que há muito se despediu da vida confortável e cuidadosa da infância. Chegando na estação da exótica cidade, Blanche é auxiliada por um marinheiro, que a indica o caminho da casa que procura. É necessário pegar o bonde chamado Desejo.

“Uma Rua Chamada Pecado” (“A Streetcar Named Desire”, 1951) é o filme que apresentou ao mundo Marlon Brando, o maior ator de cinema de todos os tempos. Ele interpreta o marido de Stella, Stanley Kowalski, filho de imigrantes poloneses. A rudez e virilidade de Stanley são personificadas gloriosamente por Brando, que já estava familiarizado com o texto de Tennesse Williams, na montagem da peça da Broadway.

Williams, por sinal, sem descanso nos brinda com frases e diálogos poderosos e belíssimos, que fazem qualquer espectador, mesmo os que nunca pensaram em atuar, imaginar que não existe nada melhor para um ator do que dizer aquelas falas.

Brando está ótimo, mas não se deve desprezar Vivian Leigh, que nos faz sentir paixão, piedade e raiva de sua perturbada Blanche, mulher sonhadora e sensível, porém com um passado comprometedor. Karl Malden empresta a dignidade necessária a Mitch, única chance de redenção para Blanche.

A direção de Elia Kazan é segura e competente, porém quase cai na armadilha do engessamento causado pela adaptação fiel de uma obra teatral. Principalmente no fim, o filme perde um pouco de ritmo, à medida que Blanche enlouquece. Mas nada que tire a relevância e ofusque suas grandes qualidades.

 

“Quem quer que você seja, eu sempre dependi da bondade de estranhos”. – frase de Blanche DuBois, interpretada por Vivian Leigh.



Escrito por Rafael Morena às 14h07
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