Regressando
Sentado na bancada de um Cybercafé do aeroporto estrangeiro, converso virtualmente com uma velha amiga. Meu notebook conecta-se à rede através do pequeno fio que sai da parede. Por isso, mesmo tão longe, posso reencontrar-me com os mais próximos.
O bate-papo segue animado, rostinhos amarelos e risonhos são utilizados para exprimir a alegria mútua. Peço licença e vou buscar, rapidamente, meu capuccino. Exemplar suíço da velha receita italiana. Deve ser bom, já que mesmo no Brasil, há quem saiba fazer. Sirvo-me do adoçante, imitação líquida de açúcar, nada mais do que dez gotinhas. Volto ao meu banquinho e desligo-me do entorno.
“Vou pegar alguma coisa pra comer, rapidinho”, é a mensagem que vejo na tela de plasma. Pois bem, bebo um gole de minha bebida, e bato ansiosamente meu pé esquerdo no chão. Para passar mais rápido esse incômodo instante, decido lembrar-me de alguma música, ou poema, que fale de solidão. Começo a tarefa, animado, porém noto que não é tão fácil assim. Nada, nem um versinho me vem à mente. Percebo pelo vidro fumê que esconde o lá fora e mostra o aqui dentro, que meu rostinho pálido exprime estranheza.
Onde está minha erudição e criatividade? Para que lugar escondido foram meus interesses e paixões? Por que não consigo lembra-me de uma canção, eu que ouço tantas? Será que as ouço? Será que elas não se perderam no mar de virtualidade, nos papos superficiais de Internet, nas bebidas “light”, “sugar free”? Será que não fui indolente demais por permitir que minha vida se cercasse dos vidros escuros, tão cômodos?
Estando plugado a um pequeno e frágil fio que sai da parede e que me conecta ao mundo, demoro a notar que ela voltou. “Oi, ainda está aí?”, me pergunta. Como se eu tivesse estado ali em algum momento daquela hora e meia. Pergunto o que ela acha que nós estamos fazendo. Obviamente, para uma questão relevante, não há resposta, a não ser um “q?”. Pergunto quando foi a última vez que nos vimos pessoalmente. “Não lembro... esse ano não foi, né?”.Resposta correta, faço uma mais difícil, pergunto se ela lembra de nosso primeiro e único beijo, ainda no chamado “caldeirão” da adolescência.
“Sim... Pq tudo isso agora?” – Por quê? Porque aquele fato representa tudo em que nos transformamos. Fomos obrigados, por nós mesmos, a fazer de conta que nada aconteceu. Tornamo-nos estéreis amiguinhos virtuais, proibidos de comentar o ocorrido. Sabíamos que, para preservar aquele deserto de sentimentos, precisávamos nos furtar o direito de preenchê-lo com vida. De lá para cá, crescemos e acostumamo-nos a confundir nosso egoísmo com liberdade, nossa frieza com modernidade, nossa canalhice e covardia com estilo. Fizemo-nos incapazes de confiar em nossa capacidade de construir uma história.
Quando envelhecermos, não teremos nada para contar aos nossos netos e, de fato, nem os teremos. Os fios de cabelo brancos, longe de serem motivo de orgulho, por serem demonstrativos de uma vida que passou bem vivida, serão pintados ou arrancados, para que possamos permanecer na idade em que paramos. Aprendemos a esconder nossos amores e humores, corremos atrás daquilo que não nos faça agir. Moldamos nossa humanidade ao silício e ao plástico que, como se sabe, não são materiais biodegradáveis. “Por nada”, escrevo depois dos devaneios. Despeço-me, pois meu capuccino suíço está no fim e meu vôo se aproxima. Recolho meu computador, saio em busca do terminal de embarque. “Cybercafé”, nome estranho... Sempre acho que no lugar de biscoitinhos para molhar na bebida, virão servidos microships. Bem, estou pronto para voltar para casa, para meu mudinho pós-moderno e meus pensamentos contemporâneos...
Escrito por Rafael Morena às 19h30
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