Um retorno ao pai primordial
No nível político, hoje em dia, o declínio da autoridade simbólica tradicional engendra a ameaça constante de um retorno ao pai primordial, aquele que estabelece a ordem encarnando a obscena figura do supereu em seu imperativo Goza! Proliferam-se "pais primordiais" nos movimentos políticos totalitários (ainda que numa versão pós-moderna de totalitarismo), tanto quanto nas seitas New Age.
Nossa era globalizada introduz novas formas de segregação do Outro. Basta pensar no desenvolvimento da xenofobia, do racismo e da purificação étnica como ocorrências nas quais o particularismo identitário luta contra a referência ao universal. Ao mesmo tempo, como alerta Zizek, vivemos um novo tipo de racismo, um racismo pós-moderno, um "meta-racismo", que pode perfeitamente assumir a forma de um combate contra o racismo. Essa resistência cínica pode ser encarada como uma das vicissitudes da atual abertura proposta pelo liberalismo e seu projeto de re-invenção da democracia e do discurso dos direitos humanos.
Entretanto, conforme argumenta Zizek, a diferença entre o meta-racismo e o racismo tradicional, direto e declarado, é absolutamente nula, uma vez que não existe metalinguagem. Talvez, exatamente por isso, a postura cínica do meta-racismo se torne mais ameaçadora, pois toda sua ambiguidade e seu enquadramento no politicamente correto baseado na ideologia que apregoa o direito à diferença, no fundo se apresentam como limites intransponíveis ao pensamento.
Nossa era é, também, a das imagens e a de um mundo instantâneo e sem memória. Em detrimento da ordem da palavra prevalece o imediatismo da imagem. Este último parece coisificar o sujeito, as relações que se estabelecem, o tempo e, enfim, o desejo. De acordo com os caminhos que se delineiam, o que fazer com o desejo quando o imediato ocupa seu lugar? Na medida também que o ideal do bem-estar transforma-se em unidade de medida privilegiada, o virtual, o descartável, o consumível organizam e ditam os caminhos a seguir. Nesse contexto, não causa admiração as múltiplas figuras que podem servir para encarnar a função de bode expiatório cuja eliminação permitiria garantir a ordem.
Esse movimento é congruente com o declínio da função paterna na atualidade, ensejando o dito de Lacan "prescindir do pai com a condição de dele servir". Esta máxima carreia todo o problema da identificação aos ideais, o que se institui como um dos pilares da servidão voluntária e dos vínculos passionais que alimentam o amor ao líder conforme a análise de Freud em "Psicologia da Massas".
Este trabalho introduz elementos fundamentais que distanciam a abordagem psicanalítica da perspectiva sociológica para pensar as relações sociais. A bipartição entre individual e coletivo é problematizada em termos da relação topológica entre ambos. A diferença entre a abordagem psicanalítica e a sociológica aparece ainda mais claramente em "Mal-Estar na Civilização", quando Freud aproxima os parodoxos da montagem coletiva da montagem amorosa, concluindo que o amor coletivo não consegue manter e sustentar o universal, pois sempre restará um resíduo inassimilável. Com isso, Freud denuncia algo que, no social, faz buraco e retira a possibilidade de uma pretensa unidade do Outro. Como exemplo, ressalta que todos os massacres de judeus na Idade Média, não bastaram para tornar mais pacífico e mais seguro este período para seus semelhantes cristãos.
A aguçada análise empreendida por Freud tanto em "Psicologia das Massas", como em "Mal-Estar na Civilização", levanta a questão relativa ao comprometimento político da psicanálise, com a ressalva do que isto possa significar, uma vez que não cabe à psicanálise interferir diretamente no que tradicionalmente se entende por questões políticas.
O comprometimento político da psicanálise envolve a dimensão amorosa dos vínculos humanos, estabelecendo um registro do amor e do laço social advertido da inconsistência do Outro e sua radical alteridade. Essencialmente, trata-se de uma política de resistência aos ideais que fabricam a tirania amorosa em suas mais diversas roupagens.
Escrito por Rafael Morena às 08h41
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Stalker - Andrei Tarkovski

A “Zona” é uma área proibida, cercada e fortemente protegida por policiais. Ninguém sabe como, há vinte anos, este lugar se formou. Alguns falam na queda de um meteorito, outros de uma invasão alienígena. Sabe-se que o exército tentou invadi-la, porém acabou aniquilado. Desconfia-se que lá se podem realizar os desejos mais íntimos dos indivíduos.
“Stalker” é o nome dado às pessoas que conseguem burlar a segurança em volta da “Zona” e penetrá-la. Os sujeitos comuns, desiludidos com suas vidas, pagam aos “stalkers” para que estes os levem até a “sala”, local mais importante da “Zona”, onde se realizam os desejos.
Dois homens, o Professor (representando o discurso científico) e o Escritor (representando o discurso artístico), decidem cumprir a jornada, auxiliados por um “stalker” (representando o discurso religioso). Durante o percurso, sinuoso e coberto de armadilhas, as três visões de mundo chocam-se. Quem estará certo?
Recomendo esta que é, sem dúvida, a melhor ficção científica de todos os tempos.
Escrito por Rafael Morena às 20h58
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Desde o avô até o filho não nascido
A1 acordou com o Sol ainda escondido. Levantou-se calmamente e caminhou a passos lentos até o banheiro. Não queria acordar sua esposa. Tomou o banho frio de todas as manhãs. Vestiu-se, comeu o pedaço de pão que sobrara do dia anterior, bebeu um copo d’água e sacou uma maçã. Saiu de casa com ela em uma das mãos, mordendo-a de vez em quando.
A2 acordou com o barulho na cozinha. Não precisou ficar muito tempo desperto para saber que era cinco horas da manhã. Diariamente, seu pai pontualmente saía de casa para lavar seu carro e depois ir trabalhar. Voltou a dormir serenamente.
A1 entrou em seu Ford 32 preto e tratou de guiá-lo para um posto próximo. Era chofer-de-praça, precisava ter o automóvel sempre brilhando. Deixou sua família repousar, sem preocupações, feliz por mais um dia de trabalho.
A2 acordou e desligou a televisão. Dormira sentado no sofá. Levantou-se com dificuldade e disse, baixinho: “Está na hora”.Foi até o banheiro e lavou o rosto. Olhou-se no espelho e pensou que merecia aquela rotina, pois fizera várias besteiras na vida. Tomou banho, arrumou-se, bebeu leite e alguns biscoitos.
A3 estava deitado de olhos abertos, alheio aos movimentos de seu pai. Perdeu o sono depois de um pesadelo. Tinha tantas coisas para pensar, mas logo deveria ir para o colégio. Não notou o barulho da porta.
A2 saiu de casa em direção ao escritório. Para ele, aquela rotina era desgastante, apesar de satisfatória. Tivera várias esposas e vários filhos, e nunca se negara a dar a eles o que necessitavam. Sustentar uma família sempre foi motivo suficiente para motivá-lo a seguir em frente.
A3 acordou uma hora antes do alarme do despertador. Fazia frio e sua cama era bastante convidativa. Tentou, neste tempo, inventar uma desculpa para faltar o trabalho, ou pelo menos se atrasar. Achava que, durante o inverno, todos os empregados deveriam fazer greve. Sem conseguir ter nenhuma boa idéia, levantou mal-humorado, e foi arrumar-se.
Vivia ainda com os pais, que dormiam tranqüilamente. Nem pensava em morar sozinho. Tivera alguns relacionamentos, um deles muito intenso. Namorou uma mulher por dois anos, ela engravidou e abortou escondido. Ele só soube meses depois de terminado o relacionamento. Não pôde fazer nada além de perdoá-la, mas o fantasma de seu filho não-nascido o assombrava. Desilusões modernas. Saiu de casa sem comer, embrulhou uma maçã para mais tarde, quando chegasse ao escritório. Apenas lembrou-se de beber um copo de suco de maracujá e tomar um calmante, para agüentar o tranco e não pensar em se demitir. Mais um dia para carregar nas costas. E estava apenas começando...
Escrito por Rafael Morena às 08h01
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