O filósofo e o menino
Formou-se em Filosofia para expressar toda a riqueza de seu pensamento. Sempre se interessou pelas questões mais elevadas, procurando em pilhas de textos as respostas para suas aspirações. Abdicou da vida mundana e instalou-se confortavelmente no céu da metafísica e das idéias profundas.
Ainda era jovem, porém fios de cabelo brancos surgiam em suas têmporas. Não se importava com aparência, mas não podia deixar de sentir um pouco de orgulho de possuir feições maduras e severas. Regozijava-se com o respeito que os outros demonstravam por ele. Acostumou-se aos elogios que recebia. Todos destacavam sua educação e seriedade, características raras nos homens contemporâneos. Enxergavam nele ecos de uma disciplina rígida e conservadora; não era de se estranhar que fosse admirado por idosos.
Gostava de ir aos jardins do Museu que, com sua arquitetura clássica, inspirava-o e levava-o para outros tempos. Carregava com ele volumes de algumas das maiores obras dos maiores pensadores da humanidade e, sentado sob uma majestosa árvore centenária, fazia suas anotações num caderninho já gasto e amassado. Às vezes, folheava os livros em busca de conceitos importantes, noutras, apenas os mantinha jogados estrategicamente para não permitir que nenhuma pessoa pudesse sentar-se ao seu lado, tirando sua concentração.
Certo dia, numa tarde agradável de outono, estudava em seu lugarzinho de sempre, sem ser importunado pelos que passeavam nos gramados, a sua volta. No instante em que chegava a conclusões interessantes acerca da relação entre o sujeito hegeliano e a Weltanschauung religiosa, foi interrompido por algo que bateu em sua perna direita. Olhou e viu que se tratava de uma bola colorida. Um menino ainda bem pequeno esforçava-se, em passos desengonçados, para chegar ao local onde seu brinquedo e o filósofo estavam.
Para não ser mais importunado, o jovem pensador chutou a bola para longe. O garotinho manteve-se estático, acompanhou o movimento de sua bolinha e, quando ela parou próxima aos patos e ao lago, correu para lá. O rapaz não prestou atenção nisso. Tentou recuperar seus altos raciocínios, só que não conseguia. Batia levemente no papel em branco com a caneta que segurava. Aborreceu-se com o tempo perdido e mirou, com seus olhos acusadores, as famílias que faziam seus piqueniques por perto.
O barulho, os balões coloridos, os sanduíches engordurados e os suquinhos açucarados, o Sol batendo em seus rostos e iluminando seus sorrisos bestiais. Sentiu um incômodo crescente, uma sensação desagradável que percorria seu corpo e o fazia tremer. Não havia nada de metafísico nisso. Sua mente confundiu-se, envenenada com lembranças nostálgicas. Tudo o que lhe causava repulsa já lhe havia sido prometido no passado. Aquelas felicidades fizeram parte de seus desejos mais íntimos, em algum lugar num tempo remoto.
Decidiu escrever o que lhe viesse à cabeça, para espairecer. Em quatro linhas, retomou a razão. Suspirou aliviado, rasgou a página escrita e jogou-a no chão. Catou seus livros e foi embora. O menininho, com sua bola a tiracolo, caminhou até o banco vazio e pegou a folha caída. Voltou a brincar rapidamente, largando o papel, já que não sabia ler. Se soubesse, leria:
“Se muito esforço custa
ter com a vida algum compromisso
também custa muito esforço nada ter a ver com isso”.
Escrito por Rafael Morena às 10h40
[ ]
[ envie esta mensagem ]
|
Conhecidos
"Eram amigos, mas deixaram de sê-lo, e ambos cortaram simultaneamente a amizade; um deles, por acreditar-se muito mal conhecido; o outro, por acreditar-se conhecido bem demais - e os dois se enganaram! - pois nenhum conhecia o bastante a si mesmo". – Nietzsche, F.
Enviei este aforismo para uma antiga amiga antes do Natal, como uma espécie de presente. É uma pena ver que, de lá para cá, apesar de termos apagado certas mágoas e desfeito alguns mal-entendidos, não conseguimos reacender aquela amizade. Às vezes, por se esperar demais, perde-se o pouco que se tem. É uma lástima que nem todos entendam isso.
Ele acordou depois de um terrível sonho agradável. Voltou ao seu quarto e a sua cama, depois de ter sido transportado para aquele outro cenário, o das memórias confusas. Nele, encontrou-se com um velho amigo, e os dois conversaram e beberam num quiosque de beira de praia. Sentiu a brisa e o cheiro do mar salgado, lembrou-se da alegria despreocupada que todos os que passavam transpareciam.
Mas ele acordou. Sob os lençóis, redescobriu o peso de sua solidão. Decepcionou-se com a realidade. Foi como uma criança que, ao se levantar feliz no dia após o Natal, relembra que Papai Noel não deixara tantos presentes quanto gostaria naquele ano. Às vezes, tentamos acender a chama de vida dentro de nós, mesmo com toda a tempestade. Depois desistimos, sem saber se fizemos o certo, se fomos ingênuos de acreditar que seria tão fácil superar a nevasca, ou se deveríamos ter continuado a luta, apesar dos esforços em vão. São dois tipos de heroísmo: aceitar a derrota, ou buscar a vitória até o fim.
Contudo, mesmo com todos os devaneios, ele acordou. Pensou em procurar o telefone de seu ex-amigo, esperando que a generosidade, que estava de passagem em seu coração, pudesse fazê-lo esquecer-se de seu orgulho por tempo suficiente. Quando ouvisse o “Alô” do outro lado da linha, não agiria como um estranho, mas com a afetuosidade de quem ficou tanto tempo sem falar com uma pessoa querida. Falaria dos dias de praia, das conquistas conjuntas, das conversas passionais sobre futebol e cinema. Pediria desculpas por sua sinceridade, pois naquela época ainda era imaturo demais para conhecer a fina arte de mentir quando necessário. Entre amigos, para que se conserve a relação, é preciso que não se toque em determinados assuntos delicados, por mais que se saiba deles.
Depois de recordar-se de seus erros e do fato de que foi o outro que se distanciou, ele acordou. É difícil fazer o luto de quem ainda está vivo. Quem deveria ter a iniciativa de reconciliar-se não era ele, infelizmente. Deveria sim, esperar que o antigo amigo reconhecesse que os dois tratavam-se de meros humanos, passíveis de cometer atos estúpidos, ou melhor, acertando com sorte onde deveriam existir apenas falhas. Virou-se e cobriu-se direito. Torceu para que não voltasse a ter nenhum sonho feliz naquela noite, pelo bem de sua sanidade.
E dormiu o sono tranqüilo, de quem não teve culpa de nascer.
Escrito por Rafael Morena às 10h29
[ ]
[ envie esta mensagem ]
|
|