Pensamentos Contemporâneos


Desconhecidos

Posicionei-me na primeira fila, como todo bom cinéfilo. De repente, feito um raio, veio ela. Cabelos ruivos, ar decidido, sentou-se próxima a mim, deixando um assento entre nós. Catei meu MP3 player para fazer hora. Tive o impulso de encará-la, pois fiquei curioso sobre a cor de seus olhos. Mas achei que não devia; reminiscências.

Notei que ela me olhava discretamente, tentei entender o que é que chamava sua atenção a mim. Talvez a munhequeira azul, ou meu anel. De resto, eu era muito careta para o tipo dela, o tipo que usa tênis ADIDAS de skatista e faixas coloridas no tornozelo. O tipo ativo e despreocupado, criativo. O tipo diferente demais para aceitar estas diferenças.

Eu sabia que só precisava dizer “Oi” para começar tudo. Em outras circunstâncias, teria feito isso, mas decidi continuar ignorando, de forma concentrada, aqueles olhares. As luzes se apagaram e o filme começou. Guardei meu aparelho e entrei no mundo nostálgico e frio da Suécia, no início do século XX. Passei a acompanhar a vida do jovem pastor que, atormentado pelos fardos que carrega, descobre no amor uma esperança de felicidade.

Percebi que ela prestava bastante atenção no que acontecia na tela. Percebi também que ela se movia levemente na cadeira em todas as cenas de beijo e sexo. Eu sorria marotamente nestes momentos. Também quando eu me movia, ela virava seu rosto para mim. De repente, como sempre acontece no Cine UFF, caiu a projeção. As luzes se acenderam. Ela botou as mãos na cabeça, num gesto teatral, e exclamou alguns “Ais!”. Olhei diretamente em sua direção e disse, reparando em seus olhos azuis:

 

- Tava demorando, né?

- É sempre assim, faz parte da tradição. – respondeu-me, virando-se rapidamente para o meu lado e sorrindo – Eu geralmente não tenho paciência e acabo indo embora, mas hoje o filme tá tão bom...

- Eu também faço isso. – menti – Mas quero saber o que acontece no final.

 

O ar-condicionado gelava a sala. Ela abriu a boca pra falar algo, mas o filme voltou a rodar. Levantou-se impulsivamente e sentou ao meu lado. Estranhei aquele ato. Fitou-me e disse:

 

- Faz frio aqui. Me abraça? Sei que é esquisito, nós não nos conhecemos, nem sei seu nome, mas... Faz frio aqui!

- Não acho legal. Seria constrangedor. Como você disse, nós não nos conhecemos...

- E isso é ótimo! – Falou um pouco mais alto, depois se conteve – Melhor nos abraçarmos agora do que deixarmos pra mais tarde, quando já tivermos conhecido nossos defeitos e os joguinhos tiverem começado.

 

Rendi-me a seus argumentos e abracei-a afetuosamente. Não voltei a prestar atenção no filme, nem tampouco prestei atenção nela. Apenas pensei no que ela me disse e numa palavra, especificamente: Conhecer. Pois não se trata, de fato, de conhecimento. No instante em que ela entrou no cinema e apareceu perto de mim, a conheci melhor do que faria no futuro. O tempo só traria desconhecimento e, quando tudo terminasse, seríamos mais estranhos um ao outro do que éramos quando nos vimos pela primeira vez... As histórias de amor são histórias de amnésia.

O filme acabou com o pastor, depois de ter falado bobagens e tendo que engolir seu orgulho, indo à cidade e à casa de sua amada para pedir-lhe desculpas. Os créditos subiram e as luzes se reacenderam. Eu e a desconhecida nos desvencilhamos e levantamos. Saímos juntos falando sobre os personagens da história e nos despedimos quando chegamos à rua.

 

- Nos vemos por aí. O festival só termina na próxima sexta-feira. – ela disse, para depois virar-se e caminhar em seus passos serelepes.

 

Tomei o rumo de casa sabendo que nunca mais nos veríamos, e satisfeito por isso. Talvez assim nós conseguíssemos que a lembrança daqueles momentos sobrevivesse íntegra em nossas memórias.



Escrito por Rafael Morena às 15h18
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A Liberdade é Azul - Krzysztof Kielowsky


O primeiro filme da trilogia do polonês Krzysztof Kieslowski (1941-1996) inspirada nas cores e nos ideais da Revolução Francesa é para muitos também o melhor (os demais são A Igualdade é Branca e A Fraternidade é Vermelha). Mas é difícil avaliá-los em separado, já que, segundo a concepção original de Kieslowski e de seu co-roteirista, o advogado Krzysztof Piesiewicz, trata-se de obra única dividida, por exigências comerciais, em três partes. Aqui, o movimento inicial é de reconstrução: abalada pela morte do marido - um maestro e compositor de prestígio internacional - e da filha em um acidente de automóvel ao qual sobreviveu, Julie (Juliette Binoche) toma a decisão de libertar-se do passado, dele mantendo apenas um lustre azul. As coisas não saem conforme o planejado e, entre outras reconsiderações sobre a própria vida, ela retoma a última obra do marido, o inacabado Concerto pela Unificação da Europa. A idéia de liberdade é explorada de um ponto de vista individual, com múltiplas possibilidades de leitura e excepcional trilha sonora de Zbigniew Preisner. --por Sérgio Rizzo



Escrito por Rafael Morena às 09h28
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Cumprindo o dever

Os braços se movimentam no latejar de músculos. O facão corta a cana em duas metades. O suco escorre de suas pontas. O peão continua o seu trabalho sem parar. O suor escorre de seu rosto e molha o solo. O céu límpido se derrama pelo campo. O dia flui com a cadência de um riacho sonolento. As raízes das plantas sugam seu alimento da terra fértil. Mal elas sabem que já morreram.

O trabalho não pára. Há mais e mais a se cortar. É preciso, pois os preços estão baixos e a colheita não compensa. As crianças têm fome em casa. A peixeira desliza pelo ar e destrói o que vê pela frente. Um cachorro saltita pela clareira aberta. Pássaros sobrevoam em bando, como para avisar que a noite está chegando. Grilos dão seus gritos, como se estivessem chocados com a carnificina evidente.

O peão mata o último pé de cana. O canavial torna-se um cemitério, e a neblina expande-se pelo local e cobre toda a sujeira. O homem colhe seus pertences e parte. Chega em casa e janta com os filhos. Apaga as velas e vai dormir um sono sem sonhos, de quem faz o que deve fazer. Lá fora, o mundo se reordena depois do caos. Uma cobra esgueira-se pelo novo ambiente. Pequenos insetos rondam o campo livre. Busca-se a harmonia impossível de restabelecer.

O Sol recomeça sua caminhada preguiçosamente. O peão levanta decidido. Cata alguns fósforos numa gaveta, lava o rosto e acorda os moleques. Todos bebem café e engolem pedaços duros de pão velho. Saem e encontram-se com o que restou do canavial. O homem passa os fósforos numa pedra e joga-os naquele monte de entulho. Pega o chapéu e usa-o para abanar o fogo e expandi-lo. As crianças pulam de alegria e brincam em volta das chamas.

Uma negra fumaça sobe. O trabalho está completo. O peão receberá seu dinheiro e procurará uma nova plantação, e as vidas silenciosas que a constituem, para queimar e matar.



Escrito por Rafael Morena às 21h58
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Alguns breves raios

Caminhei até chegar à costa. Sob meus pés descalços, a grama molhada. Estava nublado aquele dia. Antes de anoitecer, era preciso que alguns raios de Sol cortassem as nuvens. Permaneci estático torcendo para que acontecesse, sem saber para onde mirar no céu cinza.

Acostumei-me ao frio e à chuva. Passei a ver beleza no preto-e-branco, a apreciar sorrisos e vozes contidas. Tornei-me modesto. Não sinto saudades do calor e da luz, porém necessito de alguns sinais de uma vida intensa como a minha, só que diferente. Por isso saí de casa aflito, seguindo apenas minhas inspirações mais profundas e estrategicamente postas no meu coração, o melhor dos esconderijos.

O tempo seguiu seu curso e comecei a tremer, não pelo clima em si, mas por achar que teria mais chances de ver a Lua do que seu irmão, o Grande Astro. O ar que saía de minha boca condensava-se e tornava-se uma fumaça, evanescente como meus pensamentos. Minhas pupilas dilatavam-se com a escuridão crescente, aumentando meu esforço. Meus olhos embaçavam-se com lágrimas retidas, que até hoje não sei que rumos levaram.

De repente, faixas amareladas atravessaram uma fenda branca nas nuvens. Acertaram minha vista e me provocaram um sorriso. Abri meus braços, estiquei minhas pernas até ficar na ponta dos dedos e senti um leve ardor, uma morna sensação me atingindo. O mar à minha frente pintou-se de dourado e espelhou tudo o que foi afogado por tão longo período. Não havia ninguém ao meu lado, mas não estava sozinho. Encontrei-me com todos aqueles que viviam no outro lado da costa, em outro continente.

A fenda fechou-se e a escuridão chegou para ficar. Baixei meus membros, relaxei. Virei-me e fiz o trajeto de volta a minha casa. Estava satisfeito. No caminho, pensei: “Apesar de não ser feliz e de não desejar a felicidade, admiro que isso exista, pois pessoas desse tipo é que dão as cores ao mundo, fazendo da vida um tempo de esperança, e dando à mim e aos outros homens sérios e severos alguns instantes de seus breves raios”.



Escrito por Rafael Morena às 10h02
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Nada sobre a felicidade, ainda.

O desafio do escritor: Pôr em palavras aquilo que é inominável. Qual é a razão dele fazer tentativas, sempre frustradas? Será que a literatura é uma forma de fuga, uma obsessão doentia, espécie de reordenação do que ficou inacabado?

Os textos publicados nesta página têm um caráter incômodo, e ao mesmo tempo inevitável, de tautologia. Os temas são sempre os mesmos, mudando apenas o foco de atenção. Muitas frases são quase repetições de outras já escritas. Será que se pode considerar isso uma limitação? Ou uma busca incessante de perfeição?

Se a resposta exata for a segunda, voltaremos à questão do primeiro parágrafo. Pois como ser perfeito, se é da imperfeição que a sede de expressar sentimentos através da arte se apresenta? Gostaria um dia de conseguir descrever a alegria de se estar com alguém que se ama, de poder falar do próprio amor sem apelar para o piegas, de fazer com que o leitor sinta o impacto do que escrevo com seus órgãos todos, desde o intestino até a pele, menos com o cérebro (redutor das sensações). Falar menos ao pensamento, e mais aos nervos espinhais.

Escrevo sobre essas coisas simplesmente porque não tenho nada feliz para dizer ainda, nem sei se um dia terei. Não se trata de pessimismo, ou derrotismo. Nem de depressão. Estou desconfortavelmente posicionado na intercessão entre o prazer e o desejo. No lugar onde a agonia se dá, onde o calar-se diz tudo, onde ser corresponde a agir, enfim, onde a felicidade, quando muito, é apenas um anseio.

 

Esta intercessão da qual falei tem um nome: o real.

 

E chega de blá, blá, blá, por hoje.

Escrito por Rafael Morena às 23h42
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