Idade Média
Uma das minhas calouras de Psicologia é CASADA. Entrou na faculdade há um mês. Um colega meu, que duvido que não saiba da situação, anda flertando com a dita cuja.
Os cínicos (e eu já fui um deles) diria: “Dane-se, o problema não é meu. O mundo é assim, não devemos confiar em ninguém”.
O pior é a reação da mulher que, longe de ser digna, sente-se lisonjeada e pensa seriamente na traição. E suas “amigas” dão risadinhas safadas e incentivam o ato, pois “sabem que é uma situação incontrolável”.
Não sou moralista. Nem poderia ser, pois se nunca traí, já fui instrumento de uma traição. Apesar de que, neste caso, fui até o limite do suportável em minha resolução de não participar e me esforcei para que a “relação” não tivesse futuro. Se posso acreditar em uma coisa, é na minha capacidade de não cometer um erro mais de uma vez.
Portanto, coisas desse tipo me enojam de tal forma, que causam um desconforto difícil de superar. Uma revolta me aflige e penso que seria melhor se voltássemos à Idade Média. Dêem um machado para cada pessoa e larguem todos a sua própria sorte. Isso é mais honesto do que viver numa selva fingida de civilização.
Ah, e ninguém me venha falar de pulsões.
Escrito por Rafael Morena às 20h00
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Uma palavra apenas
Aquela inquietação o aborrecera durante todo o dia. Antes de dormir, a desagradável sensação o dominara por completo. Sabia que se deitasse não conseguiria dormir. Portanto, decidiu sentar-se em frente ao computador, seu amigo silencioso, e pôs-se a escrever.
Tentou descrever em palavras seus sentimentos, os tremores e os movimentos na boca do estômago. Viu, contudo, que a experiência malograra. Não estava num consultório médico para acusar sintomas. Resolveu calar-se também para a máquina a sua frente e tratou de olhar, sem ver, para o teto de seu quarto. Sua mente concentrava-se em outros pontos.
Não há dia nem hora, ou minuto desta hora que não envolva algum risco. Toda a vida se resume a esta pequena verdade. Disto ele estava consciente. Seu maior problema encontrava-se nas fundações que davam sustentação à sua existência. Sua negação feroz à vulgaridade maliciosa, sua sede de pureza e ingenuidade.
Sempre esteve à flor da pele, apesar de sua frieza aparente. Aprendeu a respeitar os outros sendo discreto. Se sabia de algo, era da chateação que sua subjetividade, assim como a de qualquer um, podia causar às pessoas em geral. Desde muito tempo atentou-se para o fato, não menos perturbador por ser reconhecido, de que seus problemas não importavam a ninguém, a não ser a ele mesmo. Muito pelo contrário, quanto mais abria seu coração aos que o cercavam, mais se via vulnerável a possíveis ataques, ou distanciamentos. Descobriu nisso uma lei geral das mais resistentes. Mas não era nada disso que o afligia naquele instante. Na solidão do recinto escuro, lembrou-se de seus afetos, principalmente do mais recente, do qual não tinha o prazer da companhia há dias. Quando o sono pesou, decidiu não mais fugir da angústia e dormir o mais rápido possível. Ao cobrir-se nos lençóis de sua cama e recostar sua cabeça no travesseiro macio, continuou a sentir o mesmo incômodo, mas uma palavra surgiu em sua mente num instante. “Saudade”, pensou, e ao fazer isso um alívio o fez sorrir levemente e transportar-se para o mundo dos sonhos.
Escrito por Rafael Morena às 21h19
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