Tiquê
Ao sair naquela noite quente e úmida, tudo estava certo, para além das lamentações. O mundo tornou-se preto e branco, sem gradações. A intensidade da experiência, soube então, não estava na pluralidade de cores, mas em seu contraste.
Portanto, a antiga agitação e a busca incessante por novidades deram lugar à simples contemplação de vida, na aceitação angustiante das frustrações inevitáveis. Nunca mais apelei às forças ocultas para justificar minha inércia. O mitológico cedeu espaço para o realístico.
E fui andando, cortando no caminho as fibras óticas que me conectavam às alegrias artificiais de meu tempo. Não queria correr. Aumentar a velocidade não me faria superar as dores que me faziam quem eu era e sou. Precisava e me esforçava para manter meu satélite mental focalizado nas miudezas de minhas vísceras. Tratava-se de minha única e última chance.
O amor é fadado ao fracasso quando se torna desejo. Isso eu aprendi ainda jovem, mesmo imaturo. Cada passo que eu dava rumo ao destino incerto, por falta de planos, me dizia mais sobre meu nada. Ao amanhecer daquela escuridão noir, não gritei um “conhece-te a ti mesmo”, não sorri para as pessoas que cruzavam meu caminho, não tive vontade de sumir dali... Simplesmente parei com o cansaço. Rígido, portanto transformado. Sofrido, portanto curado.
Escrito por Rafael Morena às 22h51
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Consciência Natural
Já ouvi muitos ambientalistas defendendo que o mundo seria mais bonito e puro sem os seres humanos. A ganância, nossa sede de poder, estaria destruindo a natureza. Estes ingênuos militantes do “politicamente correto” esquecem-se, porém, de um detalhe, e se enganam.
Pois não existe a distância fundamental entre meio e consciência. Toda a beleza do mundo, as cores deslumbrantes das flores, o aroma do campo em dia chuvoso, as geladas águas das cachoeiras, enfim, tudo que a natureza pode nos proporcionar vem de nós mesmos. São nossos olhos, ouvidos, narizes, pele, que podem sentir e criar estas percepções. Fora de nós, homens, nada existe a não ser um vazio sem importância, o mundo dos mortos.
Existem animais com vista mais apurada, olfato tenebrosamente potente, só que eles não possuem a faculdade de pensar. Nunca vi um cachorro escrever poemas em homenagem à vida e suas benesses. Nunca ouvi da boca de uma onça a maravilha de poder correr pelas matas. Nada disso há, fora de nossas “perversas” mentes humanas.
Portanto, não me falem mais da maculada natureza e de nossa maldade. Os desmatamentos e a poluição, antes de serem violências contra um mundo externo, são na verdade ataques a nós mesmos, aos nossos sentidos.
Escrito por Rafael Morena às 12h30
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