Retrocognições
Se não tem com quem falar, fale com você mesmo.
Está certo. Ao fechar meus olhos turvados pelo sono, sou envolvido por cega neblina.
Chego a uma noite fria de julho. Ando sozinho pela calçada; minhas pernas pesam e queimam. Mas não, trata-se de uma lembrança inexata; minha mente me leva muito longe para que eu sinta a fadiga.
Vou a um lugar profano. O trajeto de meu prédio até lá é o mesmo que separa a juventude da maturidade. È como se, depois de terminada a viagem, me tornasse um veterano de guerra, que simplesmente não conseguisse mais se divertir com as bobagens cotidianas da vida burguesa, pois em sua memória estariam retidas as imagens de pernas e braços e sonhos decepados.
Veio-me agora uma piada. Ela servirá para quebrar o clima sombrio de minhas reminiscências, afinal, nos dias de hoje, quem é que agüenta sofrimentos?
O menino após ter ganhado um presente diz para o pai: - Papai! Olha, sem as mãos! - Papai! Olha, sem os pés! - Papai! Olha, sem as pernas! E o pai, irritado: - Pára com isso menino! Me dá aqui essa serra elétrica!
Chego ao meu destino. Hesito em entrar, por um instante. Caminho seguro, enfim, e começo a busca. Não está no salão, onde uma mulher canta números em voz elegante. Encontro-a num recinto menor repleto de máquinas brilhantes e barulhentas. Ela está sentada em frente a uma delas, compenetrada, mas ao mesmo tempo distante. Fico em pé ao seu lado, mas minha presença não é notada. Seus olhos estão turvados, não pelo sono, ou pela neblina, mas pelo vício. Seus movimentos se limitam a toques esporádicos num botão. A cada vez que o aperta, mais perde sua dignidade.
Durante um tempo permaneço parado, observando a cena, chocado. Quando começo a sentir náuseas, encosto com uma das mãos no seu ombro. Ela vira a cabeça lentamente e quando me vê, a vergonha transparece em seu rosto. Digo: “Acabou. Vamos embora”, numa tranqüilidade assustadoramente real. Ela se levanta e cambaleia; não comeu nada durante todo o dia, apenas fumou seus cigarros. Pego-a pelo braço e ajudo-a a andar. Ao sairmos daquele inferno, o segurança na porta sorri e exclama um “Volte sempre!”.
Entramos num táxi e, enquanto retornamos para casa, penso no tempo que demorei a tomar uma atitude. Foram anos fechando os olhos, turvando-os para a realidade. Não consigo virar meu rosto em sua direção, não por causa dela, mas porque sua figura tristonha e cabisbaixa serve como um troféu ao meu egoísmo e displicência.
O trajeto de volta é mais rápido. Chegamos à esquina de nossa rua. Antes de sairmos do carro, sinto sua mão frágil encostar-se ao meu braço. Encaro-a diretamente pela primeira vez na noite e me surpreendo com seus olhos bondosos e seu sorriso doce. “Muito obrigada, filho. Você é um anjo” – ela me diz, e aquelas frases ecoam constantemente, sem redimir minha culpa pela negligência passada, mas me guiando em minhas ações futuras...
Escrito por Rafael Morena às 21h14
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