Sonetóide Manco - Biodiversidade
Não há razão para ter razão em nada.
Que precisão tem o amor de linhas retas
se paralelas afinal são nada mais
que a garantia do infinito desencontro?
Olhai à vossa volta, ó assinantes de jornais,
ó vós que devorais com proveito
as bulas abissais dos antiácidos,
quantas volutas de paixão não heis desfeito
com o desajeito de vossos membros tímidos,
a omissão de vossos sonhos flácidos.
Há maneiras mais fáceis de se expor ao ridículo,
que não requerem prática, oficina, suor.
Maneiras mais simpáticas de pagar mico
e dizer olha eu aqui, sou único, me amem por favor.
Porém há quem se preste a esse papel esdrúxulo,
como há quem não se vexe de ler e decifrar
essas palavras bestas estrebuchando inúteis,
cágados com as quatro patas viradas pro ar.
Então essa fala esquisita, aparentemente anárquica,
de repente é mais que isso, é uma voz, talvez,
do outro lado da linha formigando estática,
dizendo algo mais que testando, testando, um dois três,
câmbio? Quem sabe esses cascos invertidos,
incapazes de reassumir a posição natural,
não são na verdade uma outra forma de vida,
tipo um ramo alternativo do reino animal?
Escrito por Rafael Morena às 09h17
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