Lya Luft - Irresponsáveis e Incompetentes
Não, hoje não falo de políticos nem de governantes, mas de nós, todos nós, seres humanos: somos um bicho muito estranho.
Se fôssemos uns burgueses instalados e resolvidos, não seríamos tema de arte nenhuma e de nenhuma reflexão, nem mesmo desta colunista. Do jeito que somos, porém, muitas vidas seriam insuficientes para tanta perplexidade, raiva e ternura diante dessa coisa desamparada e incoerente que somos.
Vivemos mergulhados em mistério: nem a ciência mais sofisticada consegue explicar inteiramente nossa origem e nosso destino. O medo e o assombro marcam nossa trajetória de crianças assustadas diante da realidade cruel: em boa parte, somos responsáveis por nosso presente, nosso futuro, nossas escolhas e pelas pessoas a quem amamos.
Não somos deuses: por isso, não podemos evitar fatalidades. Em bom português, nem quando se trata de nossos filhos podemos evitar que eles quebrem a cara no aprendizado de sua própria vida. Ao contrário, é bom deixá-los com a liberdade essencial para fazer escolhas, mesmo erradas, e ir construindo seu destino.
Mas somos infantis, cheios de preconceito e medo, com idéias tortas ou vagas. Estamos cheios de teorias mal interpretadas e pessimamente aplicadas sobre como fazer (ah, os patéticos manuais de vida sexual...), parir e criar esses que o destino entrega a nós, o mais frágil de todos os animais.
As teorias falseadas, somadas à nossa insegurança e medo, resultam em falta de naturalidade e na negação da voz interior chamada bom senso, que dispensaria muitas receitas e tolices. A responsabilidade assusta e pode paralisar, sem esse ingrediente essencial que é o instinto profundo de proteger, de amar, de ajudar a crescer esse outro tão nosso e tão fora de nós.
O que vemos são crianças e adolescentes tendo em casa um "gato" sarado e uma "gatinha" aflitamente sensual – em lugar de pai e mãe; dois amigões sem autoridade nem segurança. Em quem vão confiar os nossos filhos?
Falo de jovens que usam álcool ou outras drogas, muitas vezes com a ciência dos pais que se omitem. Como recusar, como proibir, se eles próprios usam e abusam? Se estão ocupados com outras coisas, ignorantes do que se passa em sua casa? Se têm medo de contrariar os filhos e perder seu amor... como se amor se comprasse com permissividade ou dinheiro solto?
Falo aqui de quase crianças, que celebram recordes de beijos na boca com os mais variados parceiros numa só noite, em festinhas idiotas, enquanto pais e mães acham graça. Toda uma geração adulta irresponsável ignora não só as doenças infecto-contagiosas que assim se adquirem (que o digam os pediatras), mas também a prematura excitação sexual mal dirigida e mal digerida, deixando os pobres lesados na hora da bela aventura existencial que é o sexo, hoje tão banalizado.
Falo dos jovens, alguns quase crianças, que fazem roleta-russa nos rachas em nossas ruas ou em caronas com outros jovens drogados (álcool também é droga), cujos pais depois os buscarão no necrotério, roídos de culpa e de horror.
Tendo filho, a gente é responsável. Com limitações naturais, mas gravemente responsável, sim, senhores. Mas quem hoje está maduro para ser pai e mãe, quem consegue esquecer seus próprios dramas fúteis para se dedicar, para abrir espaço de ternura, para exercer a autoridade conferida pela natureza, quando sociedade e cultura falam em liberdade total como se ela garantisse vida e crescimento?
Ando cansada de certos assuntos, e o desleixo com que tratamos nossos filhos é um deles. Pais com medo dos filhos, professores com medo dos alunos, filhos e alunos, jovens de todas as idades, perdidões porque não têm em quem confiar, a quem atribuir a autoridade necessária, a quem respeitar e obedecer.
O século da bagunça generalizada começou há poucos anos: que não seja o século do fim definitivo da verdadeira infância e juventude, quando se tem pai e mãe em cuja mão segurar para não tropeçar demais, cedo demais, com feridas definitivas e males incuráveis, na ante-sala da prematura morte.
Escrito por Rafael Morena às 09h44
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Maldição - O Medo do Incontrolável
As flores murcharam. Suas pétalas enegreceram e enrugaram. Toquei a campainha da casa. Instantes depois, ela abriu a porta; já me esperava. Moveu-se para beijar-me, impulso que veio de seu amor. Esquivei-me. Eu tenho esse poder.
Avisei que não entraria, pois não pretendia demorar; a chuva estava chegando. Disse que não podia vê-la mais e que torcia para que ela fosse muito feliz. Pedi desculpas por arruinar o seu jardim.
- Que jardim, que chuva? O céu está limpo, não há nenhuma nuvem!
Tentei sorrir, mas não consegui. Sua ingenuidade me fascinava. Convivemos pouco tempo, apesar de intensamente, e ela não sabia ainda que eu tinha poderes. Expliquei que conseguia mudar o clima e que as flores morriam por onde eu passava. Confessei que podia arrefecer o amor mais cálido. Olhei para trás e vi as rosas destruídas num canteiro.
- Não há nada de errado com as flores, tem certeza de que não quer entrar? Estou preocupada. Que papo é esse de poderes? Essa é uma das histórias que você anda escrevendo?
Ela tentou encostar sua mão no meu rosto, mas consegui desviar, por sorte. Não pude evitar a emoção e, chorando, contei que tentara fazer o Sol nascer radiante naqueles poucos dias.Mas fora em vão. Desisti. Ela me olhou triste, como nunca havia feito antes. Queria dizer algo, mas não conseguia. Isso acontecia porque eu já tinha tirado de dentro dela tudo o que sentia por mim. Guardava nos bolsos da calça; estava pesado.
- Não diga essas coisas, eu...
Cortei sua fala e despedi-me. Virei as costas para ela e andei rápido para longe. Parei numa esquina, junto a uma barraquinha de flores. Comprei algumas sementes de rosas com o vendedor e pedi desculpas pelo prejuízo que causara. No céu, as nuvens ficavam mais escuras. Precisava correr para não me molhar, porém não apertei o passo. Caminhei lentamente, deixando que a névoa me envolvesse...
Peguei um punhado de terra molhada pelo temporal de um canteiro que destruí no caminho. Cheguei em casa, peguei um vaso e o preenchi com a terra úmida, misturei ao amor que estava nos meus bolsos e joguei as sementes em cima. Coloquei o recipiente próximo à janela. Agora era tentar fazer com que o Sol aparecesse no dia seguinte. Talvez assim as flores desabrochassem, livres de minha maldição.
Escrito por Rafael Morena às 11h17
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