Bombons - A esperteza de um ser estúpido
Ela chorou. Quando terminei de falar, me olhando entre constrangedoras lágrimas, a pobre me disse: “Não consigo entender o que foi que eu fiz de errado...” Fiquei sem graça, sorri forçado e me mantive calado. As pessoas podem ser tão desagradáveis de vez em quando! Uma situação embaraçosa; o que responder? Se não tivesse ficado em silêncio, vendo-a ir embora com as mãos no rosto, entre soluços, teria dito: “É a vida! Você já ouviu falar em dialética? Não? Pois tudo no universo se constitui na luta de contrários. Existem os fortes e os fracos, e prefiro ficar no primeiro grupo. Dar a rasteira antes, para não cair depois; esse é o meu lema. Na verdade, essa é uma lei universal!”
Ela chorou. Cheguei em casa e tratei de esquecer, sem muitas dificuldades, do que aconteceu. Troquei de roupa e fui direto para a cama, pois estava cansado. Não conseguia pensar em nada, me sentia livre, logo vazio. Rolei na cama durante algo em torno de uma hora. Por que será que o sono não vinha? Talvez fosse cedo ainda, estava acostumado a dormir tarde. Decidi tomar um remedinho. Rapidamente, fui para o mundo dos sonhos (o grande avesso da realidade)...
“Mamãe chegou em casa e me encontrou sentado no chão da sala, brincando com meus bonecos. Ela sorriu e me deu uma caixa de bombons. Disse que era para eu deixar os melhores para o final e não comê-los todos de uma vez. Pensei que aquilo era ilógico... Para que esperar e postergar o prazer? No dia seguinte, mamãe compraria mais. Um dia, eu poderia comprar minhas próprias caixas de bombons, e comê-las quando e na ordem que quisesse... Abri a caixa e devorei todo o conteúdo num piscar de olhos. Catei todos os pequenos embrulhos, os amassei e os joguei na caixa. Depois a arremessei na lixeira da cozinha. Minha mãe fazia um bolo naquele momento. Ela me olhou e disse: Filho, você tem que entender que, no universo, existem os fortes e os fracos. Os primeiros agem de forma prudente e honesta, já os segundos vivem o momento e não se importam com as conseqüências de seus atos”.
Acordei transpirando intensamente. Sentia palpitações, espasmos e um peso no coração. Tentei me controlar, mas não conseguia. O que estava acontecendo? Quase alucinado, lembrei que não tinha caixa de bombons no armário da dispensa. Lembrei que ela chorou e me deixou constrangido. Lembrei que eu era forte demais para permitir que aquela bobagem me abalasse. Lembrei que eu podia comprar a merda que quisesse na hora que quisesse, e que ninguém poderia fazer porra nenhuma a respeito disso. Lembrei de todas as pessoas que eu havia feito chorar. Lembrei que a culpa era para os fracos. Lembrei que essa era uma lei universal. Lembrei de cada embrulho amassado e jogado na caixa vazia.
Levantei e corri para o banheiro. Liguei a luz e me olhei no espelho. Sorri para mim mesmo, porém olheiras davam ao meu rosto uma feição doentia, logo fraca... Tomei o último comprimido da cartela, e depois a joguei, vazia, na lixeira. Deitei novamente. Meu corpo estava manso e minha razão voltara. Ela chorou, sim, e talvez continuasse a chorar naquele momento, porém eu não tinha nada a ver com aquilo. A dialética explica! No dia seguinte, compraria uma caixa de bombons...
Todos sabemos das dificuldades de nossas relações. Seria clichê repeti-las. Aqueles que fogem delas, os egoístas, não são nem dignos de pena. A esses seres, melhor seria enterrá-los com uma pá de cal. Não merecem que se escreva uma linha sobre eles.
Já para aqueles que não sustentam suas relações, sentem-se aprisionados pelo compromisso, resta apenas terminar tudo antes que o outro o faça. Muitos se consideram fortalezas, capazes de desmanchar seus castelos de cartas sem o mínimo remorso.
É isso que questiono neste texto. A experiência me ensinou que, por mais que digamos que algo não nos afeta, este algo retorna de qualquer maneira. Por mais que digamos: “Não sinto nada”, isso não passa de uma mentira.
Este é meu texto preferido, não cabe dizer a razão. Divirtam-se.
Escrito por Rafael Morena às 15h14
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Uma fresta - Para aqueles que não sei amar
Certas coisas são importantes de serem relembradas. Republico agora, após um momento catártico, os textos da série “Solitários”, que foram a razão de ser deste blog durante um bom tempo.
“Escrever é fugir da emoção”. – T.S. Elliot
Lá fora, por detrás das cortinas fechadas, as ruas lotam e fervem ao Sol de uma tarde de verão. Pelas frestas da janela, algo de sua luz e cheiro invade o meu espaço, mas não me toca. As ruas do meu coração estão silenciosas e abandonadas; é noite de uma quarta-feira de cinzas.
Mas sou escritor. As teclas são o meu refúgio e calor vital. Verdade é que leve brisa pode apagar essa centelha. Minha alma é uma vela de meia hora. Minha chama é breve. No pouco tempo que tenho, anoto todas as emoções que me faltam. Emolduradas em uma página, meu trabalho termina e o do leitor se inicia; é a ele que as direciono e é o próprio que as sente.
Só que hoje será diferente. Meus olhos latejam com o esforço; meu quarto é escuro demais. Penso em tudo que tenho deixado passar. Trata-se de ausências falantes, matéria-prima das minhas ilusões. Reafirmo, hoje será diferente. Sairei desse covil, manterei a página do computador em branco, deixarei que o imprevisível da vida urbana preencha o que resta da página do meu dia.
Saio e ando em direção à praia. Sinto um tremor no meu corpo. Não acredito no que estou fazendo. O Sol já está se pondo. Fazia anos que eu não vinha aqui. Presto atenção em todas as pessoas, em seus rostos e corpos, sinto a areia em minhas mãos e molho meus pés na água morna. Não consigo pensar em nada e isso é bom. Sorrio, fazia anos que não sorria... Pelo menos não forçado. Será que me libertei?
Algo me incomoda. Talvez eu devesse estar em outro lugar. As mudas sombras falantes avisam que minha caverna está vazia. Sinto-me culpado pela alegria que sinto. De repente, vejo que fui seduzido pela serpente da alienação. Desta vez fugi a tempo. Voltarei para casa, ou ficarei ali, deslocado, naquele lugar que não é o meu?
Cabisbaixo, reflito. “Lá fora, por detrás das cortinas fechadas, as ruas lotam e fervem ao Sol de uma tarde de verão”. Uma bela frase inicial. Uma ótima idéia. Começarei meu próximo texto dessa maneira. Quando vejo, estou afastado da praia, chegando em casa. A luz solar já havia sumido; era noite. Apenas restavam as lâmpadas artificiais dos postes e a pequena chama da criação, as duas tão estéreis quanto meus sentimentos.
Ao escritor, a quem optou pelo isolamento e casmurrice, resta apenas a pequena chama da criação artística, que é insuficiente para aquecê-lo, mas ideal para fazer sorrir e chorar quem o lê. É óbvio que estes sentimentos causados pelas belas frases duram pouco mais que um instante. Logo o leitor volta a viver sua realidade.
Para quem já experimentou o calor vital, intenso como a luz solar, quando tudo se resfria e apenas resta o autômato que deve apagar as luzes artificiais que ainda existem, sobram duas alternativas: tentar em vão relembrar os momentos de paixão e vitalidade (que foram escondidos pelo chamado Inconsciente), ou tentar vivenciar de novo estes momentos (o que gera a sensação de inadequação, que nos faz sentir como alienígenas). Há, de fato, outra opção: rir. A única forma de redenção para seres patéticos como estes talvez seja rir de sua incapacidade, de sua debilidade. Já que não se pode vencê-los... Só que as risadas são, muitas vezes, forçadas. Este espírito brincalhão esconde uma raiz de tristeza. Cada sorriso de alegria zombeteira tem o peso e o sabor de lágrimas. É tudo risível, sim, mas dói!
Escrito por Rafael Morena às 03h10
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Os Ramos - Epílogo

O amor existe, e é coisa funda,
mas há coisas mais profundas que o amor.
Como as flores, o amor é vida que cresce.
Mas por baixo estão as rochas profundas, a rocha viva que leva a vida sozinha,
e ainda mais por baixo está o fogo ignoto, ignoto e pesado, pesado e só.
E por baixo das grandes emoções turbulentas do amor, da violenta
parte verde de fora,
jaz a rocha viva do orgulho de uma singular criatura,
o orgulho cândido, escuro.
E ainda mais por baixo do leito da rocha firme do orgulho
jaz o fogo poderoso da vida sem atavios
com sua estranha consciência primordial de justiça
e sua consciência primordial de conexão
conexão com o fogo-vida mais fundo, mais terrível,
e a velha, velha e final verdade-vida.
O amor é dual, e é amorável
como a vida que viceja na terra,
mas por baixo de todas as raízes do amor jaz o leito da rocha do orgulho
nu, subterrâneo,
e por baixo deste leito do orgulho acha-se o fogo primordial do meio
que se mantém conectado ao para sempre incognoscível fogo mais remoto
de todas as coisas
e que se embala com um senso de conexão, religião
treme com um senso de verdade, consciência primordial
e cala com senso de justiça, o imperativo primordial de fogo.
Tudo isso é mais profundo mais profundo que o amor.
Escrito por Rafael Morena às 18h03
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Os Ramos Flamejantes
Eu estava embriagada de luz artificial, portanto decidi deitar e dormir. Quando as lâmpadas de meu quarto se apagaram, meu coração disparou; corri para a cama e me cobri, pois estava frio. Mal sabia eu, àquele tempo, que o caminho era sem volta. Os sinais, tão claros, passaram despercebidos. Quando adormeci e meu coração parou, entendi.
Vi-me rodeada pela mais completa e acolhedora escuridão. Ouvi passos e uma voz que sussurrou bem próxima de mim: “Te odeio!” Perguntei quem era, apesar de saber que aquela voz era minha. Só me respondeu o silêncio, que pode ser tão bom, mas que era angustiante naquele momento.
“Quem é você?”, perguntei novamente. Nada, nenhum suspiro. Às vezes é tão difícil dizer o próprio nome. Levantei da cama e corri para o interruptor; as lâmpadas não se acenderam. A porta do meu quarto estava trancada. Olhei pela janela e não consegui ver nada além de contornos de prédios. No céu, nenhuma estrela, ou cometa, veio ao meu alento. Nenhuma luz. Gritei, esperando alguma resposta. Nada novamente. Aceitei a companhia do silêncio e sentei-me no chão.
Cobri meu rosto com as mãos e pensei, sem refletir: “Será que estou morta?” Minha voz, distante e frágil, disse: “Você não está morta. Você é morta, sempre foi e sempre será, enquanto não enxergar”. Depois de um instante de incompreensão, comecei a perscrutar o escuro que me cercava e dele saíram todas as minhas verdades obscuras: meu egoísmo, meu narcisismo, minha frieza, minha insensatez, minha burrice... Todas as minhas vivências foram revistas por um novo ângulo. Os momentos felizes tornaram-se dolorosos, as conquistas tornaram-se derrotas, os amores tornaram-se indiferenças.
Não tive muito tempo para chorar. De repente, algumas chamas apareceram ao meu redor. Minha voz disse: “É hora da colheita. Estou orgulhosa de você.” Levantei-me e caminhei em direção às chamas, estendendo minhas mãos em concha e pegando-as, uma à uma, como se fossem ramos, ramos flamejantes. Depois de coletá-las todas, juntei as mãos em torno delas, e daí surgiu uma maçã, mais vermelha e brilhante que qualquer outra. Não perdi tempo e a mordi; seu suco doce invadiu meus sentidos, me fazendo pensar em areias escaldantes e em leves brisas. “Você sentiu a pedra?”, respondi a minha pergunta com um sim de esfuziante alegria. Pois ao morder aquele fruto permitido, senti a confluência de meu corpo com a pedra, a pedra-mor, a pedra-mãe, a Terra! Acordei quando meu coração voltou a bater em ritmo compassado, ideal. O calor de meu quarto esquentou minha alma. A luz natural do grande astro bateu em meu rosto. Levantei-me, abri os braços para abraçar todo o mundo, sorri e saí do quarto. Foi quando tudo começou... Renasci.
Escrito por Rafael Morena às 18h01
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