Os Ramos - Preâmbulo

Toda experiência dos sentidos eles dizem que é mística, quando
a experiência é abordada.
Uma maçã assim se torna mística quando eu sinto nela o gosto
do verão e da neve, da selvagem confusão da terra
e da existência do sol.
Tudo coisas cujo gosto eu posso numa boa maçã seguramente sentir.
Há maçãs em que a água prepondera, de gosto aguado e azedo,
e outras que puxam mais para o sol, doce-salobras
como a água de uma laguna excessivamente ensolarada.
Se afirmo sentir numa maçã essas coisas, sou chamado de místico,
ou seja, de mentiroso.
O único modo de comer uma maçã é abocanhá-la como um porco
e não sentir gosto de nada
que seja real.
Mas eu, se como uma maçã, gosto de comê-la com os sentidos todos
despertos.
O modo de a abocanhar como um porco é para mim uma alimentação de
cadáveres.
Escrito por Rafael Morena às 09h42
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