No mundo de hoje, “sempre se pode apertar a tecla de deletar”
“Como apontou Ralph Waldo Emerson, quando se esquia sobre gelo fino, a salvação está na velocidade. Quando se é traído pela qualidade, tende-se a buscar desforra na quantidade. Se “os compromissos são irrelevantes” quando as relações deixam de ser honestas e parece improvável que se sustentem, as pessoas se inclinam a substituir as parcerias pelas redes. Feito isso, porém, estabelecer-se fica ainda mais difícil (e adiável) do que antes – pois agora não se tem mais a habilidade que faz, ou poderia fazer, a coisa funcionar. Estar em movimento, antes um privilégio e uma conquista, torna-se uma necessidade. Manter-se em alta velocidade, antes uma aventura estimulante, vira uma tarefa cansativa.” - Zygmunt Bauman, “Amor Líquido – Sobre a fragilidade dos laços humanos”
Estamos nos conectando e desconectando constantemente. A vida em rede priva-nos de relações reais, tornando-nos seres virtuais. Da intimidade de nossos “eus”, de nossos “olhares expressivos” e posturas “enigmáticas”, geramos a fronteira que delimita nosso território e limita nossos sentimentos. Escrevi certa vez para uma amiga virtual (Sulamita):
“Mas não deixo de considerar que a tela do computador é fria demais para permitir que haja a cumplicidade do “olho no olho", a imprevisibilidade das feições, a curiosidade da voz, a intensidade do toque. O que nos faz cair num grande dilema. Porque sem o poder da presença, convivendo apenas com as linhas e entrelinhas de um texto, será que não nos tornamos frios também? Ao mesmo tempo que é ótimo ter a sorte de te conhecer, sendo isso feito através de uma mídia tão pobre, o que poderia ter o brilho e a solidez de uma amizade, não passa a ter a opacidade e a inconstância de uma mera contingência?”
O Orkut talvez seja o maior exemplo do mundo virtual em que vivemos. Costumo dizer que ele é uma ótima ferramenta para reencontrar antigos amigos, perdidos com o tempo. Pois bem, é curioso notar como esses reencontros se restringem às mensagens instantâneas e às telas de computador. Poucas vezes me dispus a rever esses amigos pessoalmente. Não me pareceu ser necessário.
Arthur Dapieve (se não me engano) escreveu em uma de suas crônicas, algumas semanas atrás, que a fotografia estava tomando o lugar da memória. Não precisávamos mais lembrar de nossos momentos inesquecíveis, pois os bons ficariam retidos na imagem dos filmes e os ruins não teriam nem esse espaço restrito para sobreviverem.
Um amigo meu passou certa noite em uma boate, dançando, pulando ao lado de seus companheiros, se esbaldando e, lógico, fotografando. No dia seguinte, segundo relatos do próprio, ao deitar para dormir, sentiu um vazio e uma angústia “inexplicáveis”.
Tenho uma colega com quem eu apenas converso pelo MSN Messenger. É como se a presença física do outro dissipasse a coragem que conquistamos ao tornarmo-nos “letrinhas”. A fachada retira de nós a humanidade, mas nos dá em troca a conveniência dos botões “Desligar”, “Bloquear”, etc.
Mas já escrevi demais. Preciso condensar o texto de modo que ele seja dinâmico e veloz como nossas vidinhas contemporâneas. Aí vai o século XXI em 10 linhas:
Homens que ouvem vozes para não se sentirem sozinhos, que crêem no Superior para despojarem-se da realidade, que terminam relacionamentos antes de poderem sofrer, que tomam analgésicos para eliminar a dor, que transam com bonecas, que pagam por prostitutas e prostituem seus relacionamentos, que escrevem bobagens em um blog para fugirem de seus sentimentos, mulheres que usam a pílula, que chamam de emancipação o egoísmo de não quererem engravidar, que trabalham por orgulho bobo, que baixam a tampa da privada do banheiro para conseguirem dormir, que choram ao participar de “Gestalt-Terapia”, crianças de rua que não recebem o choro de ninguém, casais que fazem amor com uma borracha entre seus corpos, que se beijam de olhos fechados, que compram seus filhos em um laboratório, etc.
Realmente escrevi demais... Creio que ninguém tenha chegado até o último parágrafo. Isso é bom, pois o que direi agora não é nada alentador: viveremos na virtualidade até morrermos. Não há terapia ou análise que nos salvem de tanta modernidade. Pessimismo? Sim, mas se isso te incomoda, não tem problema não. Apenas clique no X do canto posterior direito da tela, que tudo voltará ao normal.
Escrito por Rafael Morena às 22h27
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Notícias de Brasília e Niterói
Mesmo com a convocação extraordinária, com pagamento de salários extras para os parlamentares, o Congresso Nacional está parado nesta segunda-feira, primeiro dia útil de 2006. O início das votações em plenário, na Câmara dos Deputados e no Senado, está marcado apenas para o dia 16 de janeiro. - Folha Online, 02/01/2006
Mesmo com a reposição de aulas, com o aumento dos gastos públicos com salários de professores, após uma greve que se estendeu por mais de 100 dias, a Universidade Federal Fluminense está parada nesta segunda-feira, primeiro dia letivo de 2006. O reinício das aulas é imprevisto, estando condicionado ao retorno de professores e alunos de suas viagens de fim de ano. – Rafael Morena, 02/01/2006
“Le Brésil n´est pas un pays sérieux" - Charles de Gaulle, ex-presidente francês
Tradução: A selva é aqui!
Escrito por Rafael Morena às 09h29
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