Meus votos

No final do ano passado, publiquei no blog um de meus textos mais inspirados, "Puras Partículas". Chego ao término de 2005, sem ter nada a dizer. Ano que vem será meu último de faculdade, assim espero. Com monografia para fazer, 2006 há de ser intenso, como o verão.
Nas névoas deste inverno que durou 365 dias, algumas tochas me guiaram pelo caminho. De autômato, tornei-me autônomo novamente. O horizonte desnuda-se; cambaleio com a luz. É a falta de costume, questão de adaptação.
Que o Cristo renasça como forma de agir. Que íntegros, estejamos todos aqui quando as "festas" terminarem e o tempo, enfim, abrir.
Escrito por Rafael Morena às 09h04
[ ]
[ envie esta mensagem ]
|
Albert Camus (1913-1960)

Escritor francês. De família francesa e nascido na colónia argelina, estuda em Argel em difíceis condições económicas. Começa a trabalhar como jornalista e actor. Em 1940, já em Paris, participa na resistência contra a invasão alemã. Após a guerra é chefe de redacção do jornal Combat. Em 1942 consagra-se com o romance O Estrangeiro, epítome do existencialismo, e o ensaio O Mito de Sísifo. A Peste, romance publicado em 1947, consagra-o como grande escritor. Posteriormente dedica-se com intensidade ao teatro (O Equívoco, Calígula, O Estado de Sítio, Os Justos). Publica um novo ensaio em 1951 (O Homem Revoltado), faz adaptações teatrais de Lope de Vega, Faulkner e Dostoievsky e escreve A Queda e os contos de O Exílio e o Reino. Em 1957 obtém o Prémio Nobel de Literatura. Após a sua morte num acidente de automóvel, publica-se o seu Diário e algumas obras de juventude.
Na base da obra de ficção e ensaística de Camus está a reflexão sobre o absurdo. O homem de Camus, o protagonista de O Estrangeiro, Mersault, procura a justificação da sua existência e não a encontra, convertendo-se assim num estranho, um estrangeiro para si mesmo. Mersault mata inexplicavelmente um homem («porque fazia calor») e, sem procurar justificação, aceita ser condenado à morte. O Mito de Sísifo é uma reflexão filosófica sobre o suicídio em que o autor chega a sugerir a possibilidade de uma moral e, inclusive, de um heroísmo, do absurdo, se se vive com lucidez e plena consciência. A Peste é uma alegoria da guerra e da ocupação nazi e, mais amplamente, da condição humana, através da descrição de uma cidade assediada pela epidemia. Em O Homem Revoltado a reflexão existencialista acaba por descobrir que só revoltando-se pode o homem dar sentido a um mundo dominado pelo sem sentido.
Camus é, com Sartre, o escritor mais representativo do existencialismo francês. A sua reflexão inicial sobre o absurdo e o suicídio, a solidão e a morte, dirige-se gradualmente para a esperança e a solidariedade humanas como possíveis soluções do drama do absurdo. Esta trajectória serve de apoio a um aproveitamento interessado do seu pensamento e da sua figura pelos círculos católicos conscientes da pobreza intelectual dos seus autores. Por outro lado, a límpida perfeição estilística da sua escrita e a sobriedade da sua inspiração novelesca contribuem, em grande medida, para a eficácia da sua expressão literária.
"Na verdade, ao ouvir os gritos de alegria que vinham da cidade, Rieux lembrava-se de que esta alegria estava sempre ameaçada. Porque ele sabia o que esta multidão eufórica ignorava e se pode ler nos livros: o bacilo da peste não morre nem desaparece nunca, pode ficar dezenas de anos adormecido nos móveis e na roupa, espera pacientemente nos quartos, nos porões, nos baús, nos lenços e na papelada. E sabia, também, que viria talvez o dia em que, para desgraça e ensinamento dos homens, a peste acordaria os seus ratos e os mandaria morrer numa cidade feliz". - trecho de "A Peste"
Escrito por Rafael Morena às 12h52
[ ]
[ envie esta mensagem ]
|
?
“Como se chama?”, perguntou certa vez Clarice Lispector. Busco a resposta, mas não encontro. Talvez pela impossibilidade do êxito, deixo-me guiar pela dúvida. Que substantivo usar?
Me-lan-co-li-a. Tantas sílabas! O sentido perde-se no meio do caminho. Não, essa palavra é inadequada. Pego o dicionário e o folheio; suas páginas estão vazias. Insatisfatório. Está aí uma palavra para designar meu desempenho nesta empreitada.
“Difíceis, as coisas que você escreve!”.
Quando não se tem o que dizer, só nos resta florear o não dito. Para quem escreve, independentemente de qualidade técnica, uma página vazia é como a angústia de se focalizar aquilo que não se entende. Uma frase solta é o engodo perfeito.
Entrei no ônibus, ontem, e vi um casal e sua filha. Notei que eram de origem humilde, mas felizes. Nos olhos da menina, estampava-se o amor pelo pai. Eu estava embriagado pelo sono alimentado por conversas virtuais, mas reparei os gestos reais de afeto daquelas três pessoas. Encontrava-me sentado atrás desta família. E por todo o trajeto do veículo, um sentimento estranho, inominável até agora (talvez o seja para sempre), me dominava.
Por isso procuro pela palavra. Aquela com a qual eu possa começar um texto, mas não consigo. Desisto! Saussure está certo: há um fosso entre a linguagem e a experiência em si. Assim como há uma distância enorme entre aquelas três pessoas no ônibus e sua sombra, no caso eu.
Escrito por Rafael Morena às 21h17
[ ]
[ envie esta mensagem ]
|
Indagando e Divagando
Há alguns anos, vi uma reportagem no Vídeo Show com os atores Paulo Goulart e Nicete Bruno, que são casados desde jovens. Os dois estavam preparando uma macarronada, quando Paulo disse, ao notar que a esposa cortava errado os tomates:
“Calma filhinha! Não é a assim que se faz. Deixa que eu te ajude”.
Apesar de ser adolescente na época, ou seja, de estar no auge da estupidez e arrogância injustificada, aquela cena me tocou. Gostei da maneira carinhosa com a qual aquele homem tratava a mulher que amava. Passei a tentar agir da mesma forma.
É claro que sempre fui bastante comedido nas demonstrações de afeto, até porque detesto indivíduos sorridentes, que falam e se movem como se estivessem na Disney. Mas nunca me furtei de ser sincero com as pessoas por quem sinto admiração e respeito. Só que sempre tive a impressão de que me achavam ingênuo, ou bobo por ser assim.
Mais de uma vez, imitando Paulo Goulart, chamei alguma mulher de “filhinha”. Todas as vezes fui tratado com desconfiança, ou escárnio, ou agressividade... Reações negativas. É claro que há um pouco de masoquismo nessa insistência em fazer algo que não agrada a ninguém. O problema é que a imagem do casal de atores me vem sempre à mente.
O que foi que aconteceu? Qual foi a grande mudança de digamos, trinta e cinco anos para cá, que tenha nos tornado tão instintivos? É óbvio que houve modificações culturais e blá, blá, blá... Mas onde está o cerne desta questão, especificamente? Qual a razão da vergonha em ser sincero?
Não tenho a resposta, obviamente. Alguns dirão que nos tornamos menos “pequeno-burgueses”, aprendemos a viver perigosamente, no limite da humanidade... Será que estar “no limite da humanidade” não é o mesmo de estar a um passo do macaco? Outros dirão que pensar em tais coisas é mania de quem não tem “nada para fazer”. Eu gostaria de saber o que as pessoas costumam fazer de tão especial... Só as vejo rodando em círculos, sem nunca se distanciarem do centro.
Enfim, estas são apenas indagações de um ranzinza. O mundo continua girando e “progredindo” na velocidade de um clique de mouse. Não há espaço para divagações.
Escrito por Rafael Morena às 21h41
[ ]
[ envie esta mensagem ]
|
|