Pandemia - Parte II
Sentei-me em um banquinho num local vazio e prestei-me às divagações. Tentei não refletir mais sobre o que acabara de presenciar. Saquei uma pastilha de hortelã, botei na boca e tratei de pensar no referendo. Àquela hora, o “NÃO” já teria vencido. Tudo errado: fazer um plebiscito sobre assunto de Estado e vencer a resposta que legitima a violência e a falência das instituições estatais! Imaginei qual teria sido o voto dos dois homens da sala de espera.
Foi quando chegou um rapaz negro com camisa do Corinthians, num Fiesta. Estacionou, saiu do carro e foi para um canto afastado e escurecido pela sombra duma árvore. Encostou-se no muro. Logo depois, chegou um Palio, que parou ao lado do Fiesta e de onde saiu um playboy, vestido no estilo surfista, cabelos louros encaracolados e olhos azuis. Foi em direção ao corinthiano; os dois cumprimentaram-se e conversaram durante um tempo. Depois, dirigiram-se ao Fiesta do rapaz negro, passando por mim. Ouvi o “surfista” perguntar: “Então nós vamos até lá pegar os cinco papelotes?”. Entendi tudo, dei de ombros e coloquei outra pastilha na boca.
Escrito por Rafael Morena às 06h48
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Pandemia - Parte I
Neste último Domingo, fiz uma visita ao Centro Previdenciário de Niterói (CPN). Trata-se do pronto-socorro de importância capital para a cidade, pois a partir dele, cidadãos pobres são encaminhados, quando há necessidade, para internação em hospitais adequados.
Acompanhei meu pai, que teve uma leve crise de hipertensão. Enquanto ele era atendido, fiquei na sala de espera, assistindo o programa do Faustão. No intervalo, houve uma chamada do Fantástico, em que Glória Maria antecipava algumas das reportagens do programa daquela noite. Uma delas tratava de um “país da Europa sem corrupção” e a apresentadora convidava os telespectadores a não perderem a matéria, fazendo a instigante pergunta: “Como seria viver em um país sem corrupção?”. Havia dois homens sentados a minha frente. Um deles respondeu no ato: “Seria uma merda! Imagina que sem-graça viver só com gente honesta! A corrupção é que faz da vida interessante”.
Depois de ouvir isso, decidi sair lá de dentro e dar uma volta no entorno da clínica. Enquanto andava lentamente por aquele cenário de guerra, entre muros arrebentados e jardins espinhosos e maltratados, lembrei de pessoas conhecidas que defendiam a traição, a desconfiança, a preguiça, a bajulação... Não pude, portanto, permitir que pensamentos preconceituosos com relação àqueles ignorantes de lá dentro viessem a minha mente.
Escrito por Rafael Morena às 11h06
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