Gente de Bem
O plebiscito sobre o desarmamento está para acontecer e não posso deixar passar a oportunidade de fazer uma reflexão, não sobre o conteúdo do referendo em si, pois o considero inútil, mas acerca de um conceito interessante que foi bastante utilizado pela campanha do NÃO. A idéia de “gente de bem”.
Um dos argumentos dos que são contra o desarmamento reside no fato de que nossas instituições de segurança pública estão falidas. Destarte, os cidadãos ditos “de bem”, ficariam responsáveis por sua proteção, amparados pela lei que os confere “legítima defesa”.
Mas se formos pensar em termos de mercado, sendo derrotada a campanha do SIM, apenas os ricos terão condições de se armarem “apropriadamente”, comprando revólveres e munição adequados. Os pobres não poderão arcar com os custos de se manter um arsenal em casa, num quartinho de fundos, ao lado dos brinquedos das crianças.
Portanto os três poderes, imbuídos de um senso cívico, deveriam custear um “armamento estatal” - dos mais pobres, é claro! – para que essas “pessoas de bem” mias humildes tenham a capacidade de exercer seu “legítimo” direito e dever de atirar em quaisquer batedores de carteira que apareçam em sua frente.
Além disso, o Estado precisará dar suporte (intelectual, digamos) a toda essa “gente de bem” brasileira, abrindo escolas de tiro ao alvo, públicas e de qualidade, ajudando a população a fazer “bom uso” de suas pistolas. Pois de judô, caratê e outras “artes” marciais, já estamos abarrotados. Só assim estaremos aparelhados para construir um futuro democrático em nossa nação.
O Brasil não é Iraque! O Brasil não é Paquistão, ou Afeganistão! Do que fazer plebiscitos enquanto os deputados e senadores ganham salários astronômicos para legislar e representar os cidadãos que os elegeram, a sociedade brasileira deveria cobrar de seus governos – e aí incluo desde os municípios até o Governo Federal – políticas públicas eficazes de combate à violência e à impunidade, sua co-irmã. Do que caminharmos para um perigoso “cada um por si”, ou para idéias preconceituosas e simplistas, como essa da “gente de bem”, deveríamos fazer uma grande discussão sobre a corrupção sistêmica de nossa sociedade, da chamada “banalização do mal” e de seus efeitos.
Talvez aí, então, estaremos tomando providências efetivas para reduzir a criminalidade e fazer progredir nosso país.
Escrito por Rafael Morena às 19h14
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