Doença Cultural?
Você é do tipo que só come alimentos orgânicos (produzidos sem pesticidas nem adubos artificiais) ou funcionais (aqueles que, de acordo com os manuais da nutrologia, previnem e combatem doenças)? Note bem, a pergunta é se você só come, não se você dá preferência. Se a resposta for positiva, saiba que esse seu hábito ganhou um nome – ortorexia. Em grego, orthos significa "correto" e orexis, "apetite". Os ortoréxicos exibem uma preocupação exagerada com a seleção e o preparo dos alimentos. O receio de ganhar peso, aqui, não é o fator determinante. O que incomoda os ortoréxicos é a sensação de estar inundando o organismo com substâncias tóxicas, impuras e perigosas. Mulheres de alto nível socioeconômico são as mais propensas a desenvolver esse... o que exatamente? Aí está uma dificuldade: definir o que seja a ortorexia. A psiquiatria não a reconhece como doença, embora ela guarde traços de obsessão. Mas, segundo alguns médicos, trata-se apenas de uma questão de tempo para que os ortoréxicos passem a ser descritos como portadores de uma doença. "A fixação por alimentos saudáveis pode ser sintoma de distúrbios como bulimia ou anorexia", diz o psiquiatra Táki Cordás, do Hospital das Clínicas de São Paulo.
No supermercado, um ortoréxico não compra um produto antes de ler detalhadamente o que diz o rótulo sobre a sua fabricação e composição. É obcecado pela quantidade de vitaminas, minerais, fibras e nutrientes de um alimento. E tem pavor de corantes e que tais. Num restaurante, dificilmente consegue pedir algo além de salada. Antes, enche o garçom de perguntas como: é orgânico? Como esse molho é preparado? Quando esse peixe foi entregue? Entre um chá (orgânico) e outro, há quem não tome nem água mineral. Afinal de contas, ela pode conter produtos químicos como cloro e arsênico, que contaminam o organismo. Quando vêem alguém comendo pão branco ou tomando um refrigerante dificilmente deixam de fazer uma observação sobre "envenenamento". Não bastasse o reduzido menu que faz parte de sua rotina, o ortoréxico ainda se preocupa excessivamente com o preparo de sua comida.
O termo ortorexia é uma invenção do médico americano Steven Bratman, ele próprio um ex-ortoréxico, que só comia verduras e legumes de sua horta orgânica e os mastigava cinqüenta vezes antes de engolir. No entanto, atenção: a compulsão por alimentos perfeitamente puros, orgânicos e nutritivos não deve ser confundida com a mania de ingerir diariamente quilos de um determinado alimento ou de não consumir um específico, na vaga suposição de que isso faz bem. Nesses casos, é excentricidade mesmo – para usar um eufemismo menos indigesto.
Escrito por Interventora da Massa Falida às 08h07
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