Marcelo (e mais alguém)
Amanda, Adhara, Adele...
Marcelo chegou em casa cansado naquela sexta-feira. Passou a chave; abriu a porta; fechou a porta; trancou a chave. Eram dez e meia da noite, e o trabalho no escritório fez o favor de exaurir todas as energias que ele havia poupado para aquela madrugada. Decidiu tomar um banho e dormir. No dia seguinte poderia caminhar na praia, pela manhã.
Caroline, Cláudia, Camille...
Era advogado, portanto sua profissão exigia que soubesse de leis que ele não criou. Entrou no banheiro e despiu-se. Constituição! Códigos! Estatutos! Abriu o chuveiro, a água gelada o despertou por um momento. Logo, porém, o calor e o vapor passaram a envolvê-lo, como num abraço. Imaginou quem teria escrito as páginas intermináveis dos livros na estante de seu quarto... Talvez intermináveis vozes, envolvendo uma a uma, como num abraço.
Fabiana, Fabrícia, Fernanda...
Saiu do banheiro, nu, e nu deitou-se. Não ia pensar no escritório até segunda-feira, quando voltaria a ser aquele que trabalhava em aplicar regras que ele não criou. Marcelo seria Marcelo no final de semana. Sentiu paz e sorriu sob os lençóis, que o envolviam e o acariciavam, como num abraço. Talvez Marcelo fosse mais do que apenas ele. Pensou em todos os valores morais e éticos que o constituíam - mesmo os que ele negava – e não demorou a descobrir que nenhum deles era sua criação. Marcelo, o cidadão, o indivíduo, não era mais do que uma construção. Múltiplas vozes falavam em sua mente, menos a dele. Ou melhor, sua voz era a de outros.
Juliana, Júlia, Janeth...
Virou-se e encolheu-se num canto. Jogou os lençóis no chão, estava quente. Da janela, além da luz do luar, vinham: gargalhadas, cheiro de comida, som de motor, gargalhadas, a música da moda, as vozes nas conversas inúteis, gargalhadas... Os risos de meninas de seus quinze, dezesseis, dezessete, dezoito, dezenove, vinte anos! Mas esses risos não as pertenciam, assim como o pensamento de Marcelo naquele momento, além de tudo que ele julgava seu, como sujeito.
Paula, Patrícia, Pilar...
Não sendo sujeito, banindo os pensamentos que não o pertenciam, ignorando os risos que não eram de quem sorria, o não-Marcelo dormiu. Durante o sono, sonhou com múltiplos abraços envolventes, carinhosos e angustiantes... Sonho que, obviamente, não era dele, mas de outros.
Escrito por Rafael Morena às 08h16
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