Highway to Hell - Blog de férias
PARTE 2
Passo meus dias sentado em uma cadeira de praia, tentando ficar bronzeado com o calor do inferno. Tenho em mãos “Memória de minhas putas tristes” de Gabriel Garcia Márquez. Tento lê-lo, porém Zé me interrompe constantemente. Ele fica bem à vontade, com suas bermudinhas floridas, chapéu de palha e óculos escuros... Sempre uma nova história! Já me cansei dele, faço tudo para ser indiferente, porém o velho me trata como amigo. Suas conversas têm sido cada vez mais pessoais.
“Eu traí minha esposa diversas vezes. A pior de todas foi a primeira, obviamente, só que havia um caráter distintivo das posteriores. Eu a traí com ninguém!” – ele me olhou de soslaio, tentando encontrar alguma evidência de alarme no meu rosto, procurando vestígios da atenção que eu, de fato, prestava no que dizia. Porém eu continuava a olhar para o livro, folheando-o – “A minha primeira traição foi no dia em que, deitado ao lado dela, disse que a amava. Como foi horrível evidenciar que aquilo era uma mentira... Dali em diante, me tornei mais desonesto. Minhas escapadas eram tão descaradas e as desculpas eram tão estapafúrdias, que logo minha esposa virou motivo de deboche... Até eu ria de sua ingenuidade! – e o velho deu mais uma de suas gargalhadas, para logo retomar o tom sério – “Certo dia, tomado pelo culpa e por um porre de cerveja, decidi contar-lhe a verdade. Falei sobre todas as mulheres que tive naqueles longos anos. Ela chorou e me disse que sabia de tudo. Perguntei-lhe, chocado, a razão dela ter suportado a humilhação por tanto tempo e de ter ficado ao meu lado. Sabe o que ela me respondeu? – Zé abriu os braços de forma brusca, quase me fazendo olhar para ele, porém me contive, e folheei novamente o livro – “Ela disse: Uma pessoa pode ter 10 defeitos e uma qualidade, mas a gente às vezes se concentra de tal forma na qualidade que o resto se torna... Resto mesmo!” – a frase foi dita com tanta dor, que Zé precisou de um momento para se recompor e segurar o choro – “Uma idiota! Uma perfeita idiota! Eu continuei a traí-la e a envergonhá-la, porém sem remorsos. Ela continuou infeliz. Gente como a minha esposa merece sofrer. Se há algo certo na vida, além da morte, é o fato de existirem aqueles que são espertos e aqueles que são ingênuos! Os fortes e os fracos! Os aventureiros e os covardes! Para os primeiros, ficam os espólios; para os segundos, fica a tristeza!”
Fez-se o silêncio. Pela primeira vez no dia, procurei os olhos do Zé. Ele se surpreendeu com minha atenção. Precisei de um instante para refletir, e então sentenciei: “Pois é, mas se esqueceu de um detalhe... Os espertos, fortes e aventureiros como você terminam no inferno, enquanto que os ingênuos, fracos e covardes como sua esposa vão para o Céu...”
Zé me olhou com amargura, passou os pés pela areia escaldante e então resmungou: “Não tem graça ficar aqui sob o Sol, já que por mais que me queime, não pego cor. Que coisa estúpida ficar tostando a toa...” – foi andando lentamente para longe de mim. Então pude finalmente voltar à leitura.
Escrito por Rafael Morena às 20h13
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