Qual será o problema das lembranças? Até que ponto elas podem ser revividas sem dor? Tudo que fica para nós e que deixa um sentimento qualquer, será que isso quer dizer alguma coisa? Sentir-se culpado de sua memória...
Aí está algo triste. Relaxe. Este é apenas mais um Natal.
Ela falava e eu não conseguia me concentrar em suas palavras. Sentia-me deslocado. Quando saí de casa, não imaginei que pararia num lugar desses. O que me trouxe aqui?
Talvez a vontade de conhecer a cultura, digamos assim. Cansei de ter que estar sempre entre os melhores. Vim para a rua decidido a ir onde todos os outros estavam. E parei nesse bar.
Será que eu devia ter chamado alguém para me acompanhar? Mas quem? Todos aqueles pedantes com quem trabalho, a velha elite montada em sua própria superioridade? Não, hoje eu observaria os comuns, aqueles que não lêem tratados filosóficos, aqueles que fazem alguma coisa de útil.
Foi assim que a prostituta me encontrou. Na verdade, não sei se ela era mesmo uma prostituta. Pareceu-me uma. As roupas baratas, o perfume forte, o vermelho... Nunca fiz nenhum programa. Mas já vi essas mulheres pelos cantos das estradas. Sim, ela definitivamente me parecia uma delas. Só que estava demorando a se declarar. Será que eu precisava mexer na minha carteira, ou algo do tipo?
Minha última namorada nem pensaria na hipótese de me ver numa espelunca dessas. Quando lembro de nosso tempo juntos, a primeira imagem que me vem é de seu rosto baixo, compenetrado em algum prato de um de nossos restaurantes preferidos. Não consigo recordar seus olhos. Não de primeira.
Quanto será que a puta vai cobrar de mim? Isso me despertou por um momento, porém logo voltei a encará-la em algum ponto indefinível entre as sobrancelhas e o nariz. A última coisa na qual prestei atenção no que me dizia foi numa teoria bastante vulgar de que a maioria das bebidas não tem seu valor no preço, ou no gosto, e sim no efeito que causa. Nada muito estimulante.
Eu tinha duas notas de cem no bolso esquerdo da calça. Fiquei na dúvida se ela merecia ambas, ou até nenhuma. Não sabia se era para esperar mais tempo. O que ela queria me dizer com todos aqueles gestos estranhos? Eu ficava confuso e acordava toda vez que ela sorria para mim, era um sorriso pastoso, ele grudava em mim, tinha algo de folhetinesco naquele sorriso.
Não sei quantas vezes eu dei grunhidos como respostas a suas questões. O que eram aquelas unhas? Enormes, pintadas de um vermelho vivo. Senti falta da discrição das mulheres de minha estirpe. Só disso. Por instantes. As unhas ficavam batendo apressadamente no copo de vodca. Será que ela estava ansiosa com o pagamento, ou pelo menos com a sinalização de que ganharia algum? As mulheres com as quais eu sempre saí nunca fizeram este tipo de coisa. É claro que elas pensavam no meu dinheiro, mas me faziam me sentir importante de alguma maneira. Ouviam minhas teorias, por vezes eu quase acreditava que elas estavam entendendo o que eu dizia. Era impressionante.
Agora o silêncio. Ela parou de falar. Eu já estava mudo desde o início. Ela arregalou os olhos sutilmente, o que foi um milagre em se tratando de tal figura. Seu sorriso ficou menos proeminente. Eu diria que era uma feição de ternura. Inclinou sua cabeça levemente ao meu encontro e manteve-se estática. Fiquei com a sensação de que eu tinha que fazer alguma coisa ali.
Decidi-me por apenas uma das duas notas de cem. Depositei no decote da blusa. Achava que era assim que se agia. Ela deu um salto da cadeira, derrubou o copo do balcão, xingou-me de palavrões que eu nunca havia escutado antes. Saiu porta à fora, parecia soluçar.
Não sei se foi a bebida, mas aquilo tudo soou muito estranho. Voltei para casa decidido a nunca mais fazer esse tipo de experiência antropológica. Não tenho estômago para boçais.
O que o cinema contemporâneo fala do amor? Pergunta abrangente e de difícil resposta. Dependeria do foco de quem coloca a questão. De que amor se trata? Não, não é este o caminho que se pretende trilhar neste trabalho. Não é o caso de uma pesquisa genealógica deste conceito abstrato.
O que podemos dizer sobre o cinema contemporâneo? Caso se queira chegar a uma resposta geral, é preciso que se tenha claro que a própria generalidade se contradiz à pluralidade da produção cinematográfica. Mesmo com a preocupação de se fazer um recorte, caracterizado pelo termo “contemporâneo”, ainda nos deparamos com a vastidão oceânica do objeto a estudar.
Portanto, cabe escolher um certo número de filmes que constituam um bom campo de pesquisa. Decidimos por quatro. E estes quatro não são de todo aleatórios. Foi preciso que fosse encontrado algum ponto em comum entre eles. É claro que a similaridade passa pelo fato de todos falarem de amor, porém não fica nisso. Olhando melhor, podemos circunscrever a semelhança em outro lugar.
Trata-se de obras que se desenrolam num momento muito específico do que chamamos de relacionamento amoroso. Elas se colocam a partir de separações. O que nos poderia servir para formular uma pergunta que não seria menos vasta que a inicial: O que o cinema contemporâneo fala da separação? Ou seja, não é por uma especificidade cada vez maior de nosso questionamento que chegaremos a construir um objeto de pesquisa minimamente palatável. De fato, se queremos discutir alguma coisa sobre este assunto, é necessário que nosso olhar funcione de forma menos reducionista..
“Amor à Flor da Pele”, “2046 - Os Segredos do Amor”, “Separações” e “O Passado” são visões contemporâneas acerca da separação de quem se ama. Porém não é pelas suas similitudes que desenvolveremos este trabalho. Não é para buscar um Universal que silencie suas singularidades que começaremos a viagem; caminho perigoso. Mas é a partir deste suposto Universal que iremos questionar a teoria psicanalítica, tentando descobrir no que ela pode nos ajudar a encontrar as singularidades, caminho não menos perigoso que, pelo menos, nos adverte a não sermos ludibriados pelas malícias do amor à completude.
"Boa parte do humor, em especial a comédia do reconhecimento - e a maior parte do humor consiste em comédia do reconhecimento -, simplesmente procura reforçar o consenso e de maneira alguma procura criticar a ordem estabelecida ou mudar a situação na qual nos encontramos" (Critchley, Simon - On Humor)
Slavoj Zizek - Trecho de "The Ticklish Subject" ("O Sujeito Instável")
"Resumindo, há um domínio "para além da Bem" que não é simplesmente a patológica vilania do cotidiano, mas o pano-de-fundo constitutivo do próprio "Bem", a terrível fonte ambígua de seu poder; há um domínio "para além da Beleza" que não é simplesmente a feiúra dos ordinários objetos do dia-a-dia, mas o pano-de-fundo constitutivo da própria "Beleza", o Horror velado pela fascinante presença da Beleza; há um domínio "para além da Verdade" que não é simplesmente o domínio das mentiras banais, falsidades e enganações, mas o Vazio que sustenta o lugar em que cada um pode apenas formular ficções simbólicas que nós chamamos de "verdades". Se há uma lição ético-política da Psicanálise, ela consiste na constatação de como as grandes calamidades do século XX (do Holocausto ao desastre Stalinista) não são o resultado de nossa queda na atração mórbida destes "para além" mas, pelo contrário, o resultado de nossa tentativa de nos afastar do confronto com isto e de impôr o direto governo da Verdade e/ou do Bem".
Isso me faz lembrar de uma frase famosa de Slavoj Zizek, que é a seguinte: "O problema com o Nazismo não é que ele tenha sido radical. O real problema é que ele não tenha sido radical o bastante". Na Alemanha da década de 30, tratava-se de uma necessidade de reação à degradação social, no sentido de que ela constituiria uma espécie de câncer da sociedade, que contaminaria as partes sãs. Levando ao pé da letra o que Zizek diz no trecho acima, a iniciativa da reação tem como fator constitucional a idéia de uma distinção constitutiva entre pares de opostos, o "Bem" (no caso, a sociedade capitalista aristrocática alemã) e o "Mal" (a podridão do cabarés das capitais, a cultura irônico/crítica judaica). Zizek diz que o radical seria tentar colocar em xeque a própria sociedade, no que ela cria a podridão, no que ela gera violência. Nesse sentido, a reação nazista nada mais foi do que a exacerbação da "feiúra", do "mal", da "mentira" que dava base aos ideais da época.
Até que ponto nossas reações indignadas aos casos cada vez mais freqüentes de assassinatos perversos, de crianças arrastadas por carros, de filhos sendo mortos pelos pais e de pais mortos por filhos, não demonstram, para além da idéia de que "estamos ficando cansados do que está acontecendo", que na verdade estamos criando também mecanismos cruéis de vingança? A vingança é sim uma forma de mascarar, de sufocar o Real que se apresenta nestes casos que, principalmente por revelarem que "nós também podemos fazer essas coisas", precisam ser violentamente rechaçados. Porém, a própria reação acaba deixando às claras nossa "maldade" constitutiva, ou seja, ela também comporta a vilania dos atos mais brutais, só que travestida de "Justiça".
Tom Bell é xerife de uma pequena cidade do Texas. À beira
da aposentadoria, questiona-se quanto ao seu trabalho, sua obra, aquilo que fez
durante tantos anos. Lembra-se de seu pai, que seguiu a mesma profissão. Será
que ele teria conseguido lidar com o tipo de criminoso que Tom tem encontrado,
um tipo novo nas paragens de 1980? Criminosos sem regra, sem lei, sem
significado, como Anton Chigurh, assassino em série que se compara a uma moeda,
transitando sem rumo pelo mundo, passando de mãos em mãos, trazendo sorte, ou
azar, para quem o encontra? “Quem quer lutar contra esse tipo de gente, tem que
estar disposto a entrar neste novo mundo”, diz Tom Bell. A pergunta que fica é
se ele terá essa disposição.
Bruce Wayne é um bilionário que poderia simplesmente
curtir a vida como um playboy, sem se ocupar das mazelas sociais. Poderia, se
não tivesse visto seus pais serem mortos por um ladrão, quando pequeno. Depois
de pensar em vingança, decidiu tornar-se um símbolo de luta subjetiva para se
transformar num homem melhor. Tornou-se o Batman. A cidade em que vive, Gotham
City, é corrupta e degradada, porém ele acredita que, com um bom exemplo, com um
justiceiro, um fora-da-lei que combata o crime, as pessoas se inspirarão nele e
poderão, enfim, reconstruir a cidade pelo viés da lei. No dia que isso
acontecer, Gotham não precisará mais de Batman. Ele chega a encontrar a pessoa
certa para substituí-lo: Harvey Dent, novo promotor público da cidade. Porém há
alguém que pode botar tudo a perder, um criminoso lunático, perverso, chamado
Coringa. “Eu não faço planos, a sociedade faz planos. Eu apenas sigo o
movimento”, diz Coringa. Como a moeda de Chigurh, moeda que será o símbolo de um
outro vilão, Duas Caras, que decidirá a sorte de suas vítimas através do
Cara-e-Coroa, o Coringa apenas flutua pela vida, causando morte. Batman não sabe
lidar com esse tipo de gente, assim como Tom Bell; tratam-se de pessoas que
“apenas querem ver o mundo pegar fogo”, não há como puni-los pela lei, ou
melhor, a lei é falha contra aqueles que não se importam com ela.
Tom Bell e Bruce Wayne são os personagens principais dos
dois filmes mais famosos do ano, “Onde os Fracos não têm Vez” e “O Cavaleiro das
Trevas”. O primeiro foi agraciado com o Oscar, o segundo é a maior bilheteria de
todos os tempos. Ambos tocam no problema crucial de nossos tempos pós-modernos:
a violência sem sentido, a pura perversidade de nossa geração e sua relação com
as velhas engrenagens do Estado de Direito. Há esperança para além do caos? Há
uma ética possível num mundo sem uma resposta sintetizadora, religiosa? Os dois
filmes são levemente pessimistas. O bandido não sofre nas mãos do mocinho. De
fato, os heróis parecem sempre defasados com relação aos vilões.
Chama atenção também a diferença de recepção dos filmes
pelo público. “Onde os Fracos...” causou acessos de raiva nos espectadores. Nos
cinemas, após o término da película, várias pessoas ligavam para amigos
recomendando que não vissem essa “merda” sob hipótese alguma. Já “Batman” tem
sido um êxito completo, talvez por dialogar melhor com o público, por ser mais
atraente ao mostrar efeitos especiais e personagens clássicos de HQ. Ou seja, o
primeiro é mais contundente, toca nas feridas de forma mais direta, o que pode
causar resistências. O segundo é mais “leve”, consegue atingir uma audiência
mais abrangente, mas perde exatamente por não angustiar o suficiente.
De qualquer forma, é bom ver
que a questão da “Ética” tem recebido um tratamento digno no Cinema
contemporâneo, abrindo debates e não dizendo simplesmente o que devemos fazer. É
um primeiro passo.
Semana corrida, novo estágio, apresentação de trabalho de conclusão, transformação do mesmo em artigo para publicação, aulas, etc. Não sei se conseguirei escrever algo aqui nesses dias. Mas já, já voltarei. Deixo um trecho do livro Desonra, de J. M. Coetzee, que recomendo a todos:
"Vai ficando cada vez mais difícil, Bev Shaw lhe disse uma vez. Mais difícil, mas mais fácil também. A gente se acostuma com as coisas ficando mais difíceis; a gente acaba não se assustando mais quando o que era o mais difícil do difícil fica ainda mais difícil."
"Permaneci quatro meses na enfermaria masculina e completei meu primeiro ano de rede na enfermaria feminina. No início de minha trajetória, admito que me senti perdido. Não sabia exatamente o que “deveria” fazer, nem qual era minha “função”. Certo dia, eu ouvi de um paciente, o falecido Cláudio Rebelo, a seguinte pergunta: “Quando você assumirá seu posto aqui dentro?” Não pude responder, já que meu “posto” ainda não existia.
De onde vinha essa dificuldade? Creio que não me ajudou o fato de ter pisado pela primeira vez no Hospital como um mero estudante universitário. Acostumado a ficar confortavelmente sentado em sala de aula, esperando que o professor me convencesse de que ele estava correto no que tentava ensinar, me encontrei numa situação contrária. Eu é que precisaria, agora, lidar com o desconforto que a realidade da enfermaria me impunha e tirar disso conseqüências práticas no sentido de convencer a mim mesmo, e aos outros, de que poderia fazer algo de útil com o espaço que havia me sido cedido.
(...)Os textos psicanalíticos falam muito de “foraclusão”, de “ausência de laço social”, etc. Porém, voltando ao argumento anterior, enquanto agisse como universitário, acreditando num conhecimento a priori que pudesse “domesticar” a loucura, torná-la adaptável às minhas teorias, estaria longe de me apresentar realmente naquilo que fizesse.
(...)Partindo do princípio de que não é necessário ter formação psicanalítica, nem passar por um processo de análise para estar onde eu estava, me vi com o desafio de encontrar algo na psicose que fosse além dos jargões, algo de palpável que me ajudasse a dizer o que é esta clínica, mesmo mantendo uma referência na Psicanálise, passada pelos meus supervisores. Nada melhor do que simplesmente olhar à minha volta e abordar os pacientes".
(Trechos de meu trabalho de conclusão de estágio supervisionado)
"Quando você saía pelas portas dos fundos daquela casa havia um cocho d'água de pedra no meio do mato do lado da casa. (...) Não sei quanto tempo fazia que estava ali. Cem anos. Duzentos. Dava para ver as marcas do cinzel na pedra. (...) E eu comecei a pensar no homem que tinha feito aquilo. Aquele país não tinha tido um período muito longo de paz em momento algum que eu soubesse. Li um pouco de sua história desde então e não tenho certeza de que tenha tido. Mas esse homem havia se sentado com um martelo e um cinzel e escavado um cocho d'água capaz de durar dez mil anos. Por que isso? No que ele tinha fé? Não era que nada fosse mudar. O que talvez você possa pensar, acho. Ele com certeza não era tão ingênuo. Pensei um bocado nisso. (...) Sou capaz de dizer que aquele cocho ainda está lá. Não teria sido fácil tirá-lo dali, vou te dizer. Então penso nele ali com seu martelo e seu cinzel, talvez uma hora ou duas depois do jantar, não sei. E devo dizer que a única coisa que consigo pensar é que havia alguma espécie de promessa em seu coração. E eu não tenho a menor intenção de escavar um cocho de pedra. Mas gostaria de ser capaz de fazer esse tipo de promessa. Acho que é a coisa de que mais gostaria, acima de tudo". (Cormac McCarthy - Onde os Velhos Não Têm Vez)
Chegou em casa e as luzes estavam apagadas. Não poderia ser outra coisa, já que não vivia com mais ninguém. Lembrou-se dos tempos de filho, quando tinha sempre os braços e abraços de sua mãe. Abraços que eram dados por olhos e sorrisos largos, pelo colo quente e acolhedor. Não é de agora que decidiu não ter mais vergonha destas lembranças. Estava ficando velho.
Voltando ao presente, fechou a porta e caminhou com cuidado até o interruptor. Ligou as luzes e, se podia retornar ao passado na escuridão anterior, se podia preenchê-la com suas reminiscências mesquinhas, agora só lhe restava se deparar com a presença incômoda do silencioso sofá, da tela plana do televisor, das paredes brancas e frias. Agora, só lhe restava a realidade. Olhou seus objetos como se olha para estranhos suspeitos numa rua deserta. Isso foi por um instante, quando ainda acreditava ter companhia, mesmo inanimada. Depois lhe sobrou a solidão.
Decidiu sentir fome, ir à cozinha para preparar um lanche. Quando comeu o último pedaço de sanduíche e bebeu o último gole de suco de maracujá, largou o copo e durante alguns minutos mirou perplexo suas mãos abertas, as linhas das palmas. Sempre lhe disseram que uma delas era a linha da vida, só que não sabia qual era. De fato, todas se pareciam mais com caminhos estreitos que desabam num nada, caminhos que não levam a lugar nenhum. Acordou e pensou em fazer mais alguma coisa. Lavar roupas, ver um filme, escrever algo, qualquer atividade seria perfeita.
Caminhou até a janela de seu apartamento, procurou as estrelas e a lua, mas o céu apenas apresentava-se rosado, como se fosse chover a qualquer momento. Ele esperou pelas gostas, de vez em quando esticava o braço para saber se estava chuviscando. Nada aconteceu. Tomou banho e deixou-se envolver pelo calor da água. O som dela batendo forte no piso às vezes lhe dava a idéia de ter gente ao seu redor, como num jogo de futebol. Conseguia ouvir as vaias, os gritos de olé, o gol. Fazia tempo que não ia a um estádio.
Mais tarde, deitou-se em sua cama e assistiu a um programa sobre culinária. Nada melhor do que isso. Sentia um certo incômodo com filmes dramáticos, que falassem sobre famílias, ou sobre qualquer coisa que lembrasse sociedade. Faltou luz, ficou sem saber o fim da receita de carneiro ao molho de menta. “Deve estar chovendo em algum lugar nas redondezas, enfim”, pensou. Porém não ficou nisso, foi mais além. Devia ter também um casal fazendo amor, uma família comendo à mesa de jantar (como acontecia na casa de sua infância), amigos se abrigando do temporal debaixo de alguma marquise no centro da cidade. Era tudo tão próximo que era impossível tocar.
Dormiu quando não tinha mais o que imaginar. Apenas ouvia um zumbido, que é o verdadeiro som do silêncio. Sonhou com dias felizes, que só podiam mesmo existir na sua mente.
“Diferentemente do que acontece em todos os níveis do reino animal (...), o homem caracteriza-se na natureza pelo extraordinário embaraço que lhe causa (...) a evacuação da merda”.
Esta frase de Lacan encontra-se em sua conferência intitulada “Meu ensino, sua natureza e seus fins” e tem uma analogia muito grande com o constrangimento que Lourenço, protagonista do filme “O Cheiro do Ralo”, sente quando alguém parece se incomodar com o desagradável odor proveniente do banheiro de seu escritório. Faz questão de dizer que o cheiro é do ralo, não dele. Porém, se é só ele quem usa este banheiro, como o cheiro pode não ser dele?
De onde vem esta necessidade de desvencilhar-se daquilo que é o seu “produto”, porém com o que não se pode identificar? Lacan diz que “o homem é o único animal para quem isso representa um problema, mas prodigioso”. Lourenço também age como se fosse um problema, só que prodigiosamente começa a relacionar-se de outra forma com isso. Não é por um certo decoro que ele se embaraça com o cheiro, mas porque isso diz algo sobre sua condição. Não é à toa que ele demora a tentar consertar o ralo, e mesmo assim, acaba de fato não o fazendo.
Qual é a função de um homem que compra quinquilharias e as acumula sem revendê-las? Qual é a relação entre estes objetos sem valor e a merda que escoa pelo sistema de esgotos e acaba numa Baía de Guanabara qualquer? Parece que Lourenço é o dono de um depósito de restos. Na verdade, parece que ele próprio é um resto, um resquício de uma humanidade levada ao seu ponto mais elementar.
Não podemos deixar de compará-lo ao personagem de “Talk Radio”. Ambos relacionam-se com os outros a partir de uma sinceridade radical que os coloca em situações-limite e experiências mortíferas. Não é coincidência que os dois tenham finais semelhantes. O entupimento do ralo demonstra que algo está por um fio. Existem detritos que precisam circular nos subterrâneos, para que a cultura se faça. Lacan coloca como pedra fundamental do surgimento das grandes civilizações a criação de sistemas de esgoto. Se os dejetos se acumulam e transbordam, algo do Real se apresenta.
Lourenço é um homem que simplesmente não consegue conviver com a chamada “normalidade”. Convites de casamento, boas intenções, romantismo, tudo o conduz à realidade dura da degenerescência, da podridão e do cheiro insuportável de seu banheiro. O homem que nunca se deixou seduzir por uma bela bunda, que atire a primeira pedra. A questão que se coloca para ele (e onde outros homens muitas vezes recuam), é a de saber como conquistá-la sem receber a mulher em acréscimo.
Ou seja, Lourenço se identifica com a merda porque ele vive a cultura ali onde não há disfarces, onde ela se coloca como um sem-sentido. De certa forma, não seria esta a postura valorizada em nosso mundo pós-moderno? A ironia, forma cômica muito apreciada pelo personagem e que também se constitui no paradigma do humor de nosso tempo, não seria na verdade uma espécie de crítica sem ato? Cabe a ele apenas responder sintomaticamente a isso no que ele acredita não se reconhecer.
“O Segredo”, “best-seller” do momento, parte da premissa de que existe uma lei, a “lei da atração”, que rege nossa relação com o universo e que, durante um bom tempo, esteve nas mãos de alguns poucos privilegiados. Só na passagem de uma cultura primordialmente religiosa para uma científica é que ela pôde ser desvendada para as pessoas em geral.
Esta teoria consiste na idéia de que o cérebro humano transmite vibrações numa determinada freqüência, atraindo coisas para os indivíduos de acordo com seus pensamentos e sentimentos. Ou seja, para os que conhecem “o segredo”, na vida não há lugar para as contingências. Se tudo que se tem é fruto da mente, se tudo que acontece conosco é atraído por nós, onde haveria espaço para o que se chama de “Real” em psicanálise?
Amor, dinheiro, saúde... Quem em nossa sociedade não pensa nisso? Sem dúvida, até algumas pessoas que buscam um psicanalista, na verdade, querem mais é encontrar uma chave, uma resposta, uma fórmula para possuírem estas coisas. Ter isso impresso, ou em dvd, facilita tudo e é bem mais barato. Se as “energias do Universo”, uma espécie de “gênio da lâmpada”, substituto de Deus (será?), são capazes de nos dar o que “desejamos”, onde está o sujeito? Numa crença? Se os desejos são fruto da mentalização, se os sentimentos podem ser moldados a partir de um determinismo, será que existe o inconsciente?
A física quântica entra em cena, dentro da moda atual, para balizar o “Segredo”. Afinal, há algo mais misterioso do que a teoria de Einstein? Não deve ser à toa que ela venha sendo utilizada com tanta freqüência. No livro, há depoimentos de psicólogos e filósofos ao lado de neurologistas e cientistas de diversas áreas. Será que essa ligação não tem a ver com uma certa tendência, uma pretensão que remonta aos primórdios da Psicologia e que tem a ver com a dita necessidade de confirmação científica dos estudos do psiquismo humano? E, por outro lado, não está em voga também uma “psicologização” da cultura ocidental, onde não se pode nem fazer um projeto de edifício sem se questionar acerca da subjetividade do engenheiro?
Uma determinada abordagem psicanalítica com certeza contribui neste processo. Pois os conceitos criados por Freud, referentes à prática, e discerníveis apenas na mesma, ganharam vida própria e tornaram-se jargões. Tanto em determinados círculos de analistas, quanto nas universidades, banalizaram-se discursos vazios que utilizam “clichês” na busca de confirmação, de validação acadêmica, assim como alunos que têm procurado a análise não por sentirem-se indispostos com sua vida, mas por acharem que assim receberão um saber, um “segredo” de como se tornarem também analistas. Há quem atenda essa demanda.
Ou seja, o sucesso do livro pode ser considerado intrigante, ou mesmo causar uma onda preconceituosa por parte de estudantes e acadêmicos de ciências humanas. Porém, o fenômeno existe e precisa ser destrinchado. O que provoca tamanho sucesso? Será que no cerne da própria prática dos psicólogos e das ambições de alunos universitários não estaria a resposta para a questão? Se assim for, faz-se necessário que se preste mais atenção nesta obra, pois ela pode ser bastante instrutiva para aqueles que têm uma visão crítica de suas profissões e que esperam realmente fazer algo que seja diferente do que “O Segredo” faz.
Passa o lápis nos olhos e sai para a festa. No salão abarrotado, som alto te ensurdece; todos estão mudos. Quer sentir gente ao seu lado, quer alegrar-se diante de outros. Só que as pessoas neste lugar usam máscaras gregas, sorridentes. Os rostos estão escondidos, e isso te entristece. Sua vista umedece, tudo que enxerga torna-se borrão, e um rio de desgosto escorre pelo blush de sua pele. Seriam lágrimas reais, salgadas? Ou apenas ilusórias, maquiadas?
Todos se mexem sem parar. Chamam isso de dança. Você também chamava. O que mudou? Quando entrou, era a mesma menina sorridente de sempre. Agora anda em meio aos outros, os indefinidos outros, caminha e esbarra, ombros e mãos, todos se batem, todos se debatem em energias que não sabem utilizar de maneira diferente. Simplesmente não vê sentido nestas coisas. Coisas? São pessoas, apenas pessoas em busca de tudo aquilo que o mundo sempre buscou e que terá, enfim, em algum lugar guardado no futuro.
Calafrios. Lembra-se deste salão, da noite em que o som tocava aquela música,igual a todas as outras, sem letra, sem voz, sem instrumentos, e você ali no meio, misturada, apagada, as coxas roçando nas pernas de um sem-nome, os braços erguidos como em reverência a um Deus que não existe mais, mas que parece próximo, não tanto quanto o Diabo que, por sinal, também não existe mais, só que paira e, com seu hálito gelado próximo à sua nuca, justifica seus pecados.
Cada batida da bateria ilusória movendo seu corpo, sim, se lembra, nunca se sentiu tão viva, tão livre. Até que os lábios de seu par inonimado encostaram-se nos seus, braços fortes a envolveram e você por um instante pôde se entregar, teve esta opção, mas não o fez. Por quê? Você quebrou as regras do jogo porque não as reconhecia. Perguntou-se a razão daquele exagero, daquele abuso, você só estava se divertindo, suas mãos macias não acariciavam, apenas se moviam com o andar do ritmo. Seus seios não se enrijeciam por estar excitada com a presença do sem-nome, afinal ele era apenas um espectro, como todos os outros.
O fato é que hoje, ao voltar a esse lugar, tudo lhe é estranho. Tudo se tornou estranho. Tudo se resume a esse salão. Toda a (sobre)vida que leva cabe aí. O que acredita ser o certo, no mundo em que o certo não existe, sua incapacidade de amar, de sentir, de criar, de gerar mais vida, mais do que a dos fantasmas que pululam na luz cambiante e por entre a fumaça que a cerca. Será que é apenas essa imagem frouxa? Chora, mas chora escondido, mesmo que isso não seja visto, já que ninguém te vê.
Pois você não existe, é apenas mais uma sombra que se mexe ao sabor de chamas fugidias. Você não é, assim como Deus e o Diabo nunca foram, nem serão no futuro, apenas esperarão o dia em que serão reconhecidos pela sua esperança de existir, mesmo que numa lágrima fortuita... Fortuita como um beijo desapegado.